Carta Aberta” de Carmen Dolores a Manuela Maria

Carta Aberta” de Carmen Dolores a Manuela Maria

Numa “Carta Aberta” de Carmen Dolores a Manuela Maria recordamos o início do “sonho” da Casa do Artista!

“Lembras-te Manuela, daquelas saudosas reuniões todas as segundas-feiras, no 3 andar do 53 da Rua da Vitória (espaço emprestado pelo seu proprietário – Eduardo Almeida e Silva)?
E eu continuo a ver um Armando (Cortez) sempre em movimento e a inventar maneiras de conseguir apoios para a construção do nosso sonho comum de uma Casa do Artista. O Armando sempre com aquele ar que parecia não tomar nada a sério, mas com mais eficiência do que qualquer outro.
Também era presença assídua o Octávio Clérigo, nosso primeiro e entusiasta presidente, com o seu garbo e as suas vistas largas! Tu e eu éramos menos ambiciosas… Mas reconheço que, sem ele, a nossa Casa do Artista não teria a imponência que hoje tem. É evidente que isso também foi possível pela atribuição daquele extenso terreno, propriedade da Câmara Municipal de Lisboa, por vontade do seu então Presidente, Eng. Kruz Abecasis, sempre interessado e amigo.
Tenho ideia que começámos por pagar 62 496 escudos anuais pelo direito de superfície. Na primeira escritura, o terreno seria concedido durante 50 anos. E por fim passaria para os 99 anos sempre renováveis. E tu lutaste bem por isso! No princípio também estava connosco o João Videira Santos, muito participante, e depois o Pedro Solnado, nosso tesoureiro fiel e amigo, de uma extraordinária dedicação e pronto a tudo resolver! Para quem não saiba, o Pedro era sobrinho do Raúl (Solnado), que foi quem trouxe do Brasil a ideia de uma Casa do Artista, também em Portugal. Num parêntesis, acrescento que, depois dos anos que vivi em Paris, também regressei a Lisboa com a ideia de conseguir um refúgio para todas as pessoas do espectáculo, no fim das suas vidas. Por saber isto, o Armando contactou-me e assim me juntei a vocês, quando se fundou a Apoiarte. Mas voltando a Raúl Solnado, não podemos esquecer a sua acção nesse princípio, ao organizar vários eventos em prol da nossa causa. Também um Tomé de Barros Queiroz, dos primeiros a oferecer o seu valioso contributo. Assim como o bailarino Albino de Moraes, nosso primeiro sócio benemérito, que deixou à Apoiarte todos os seus bens.
E o Dr Braz Teixeira, Presidente da Mesa da Assembleia Geral, desde o princípio até há meses atrás. Sem esquecer os arquitectos do Atelier Augusto Silva Ferreira dos Santos, Luís Rebelo de Andrade e Francisca Ramalho.
De justiça será também de referir o apoio de vários Governos, no poder de 1986 a 1999, tempo que durou a preparação e construção da Casa do Artista!
Que perseverança!
Mas muitos mais nomes deviam ser mencionados aqui, se não fosse difícil tudo sintetizar neste pequeno espaço. Apenas faço alusão aos primeiros tempos vividos por mim na Apoiarte, porque continuo a pensar que foram alguns dos melhores momentos de camaradagem e compreensão, apesar de sermos todos tão diferentes… mas essa diferença parecia completar-nos.
E apesar de todas as incertezas, éramos verdadeiramente felizes, vivendo na esperança de que tudo aquilo representava mais do que um sonho. Depois viriam algumas desilusões, muitos cansaços, mas tu e o Armando nunca pararam. E tu, Manuela, continuas a lutar, agora com outras grandes ajudas, porém sempre com uma força que não sei onde vais buscar.
Mas falar das dificuldades desse longo período não vale a pena. O que interessa é verificar que, até hoje, já residiram na Casa do Artista à volta de 284 sócios. E, sem especular, apenas pergunto: Qual teria sido o fim de muitos desses seres humanos, tão fragilizados no último percurso da vida, se a Casa do Artista não existisse?”
Carmen Dolores