Conheça o Testemunho de Luís D’ Oliveira Nunes sobre o “nascimento” da Casa do Artista

Conheça o Testemunho de Luís D’ Oliveira Nunes sobre o “nascimento” da Casa do Artista

Luís D’ Oliveira Nunes foi um das pessoas ligadas ao “nascimento” da Casa do Artista. Um processo longo, e cheio de vicissitudes, que agora nos relata na primeira pessoa.

“Corria o ano de 1986. A grande sacudidela na sociedade portuguesa (1974-75) começava a produzir os seus efeitos. A velha sociedade do Estado Novo fora desalojada das suas estruturas, muita gente deixara o País coagida pelas forças revolucionárias de extrema-esquerda, muitos outros sentiam dificuldades em se adaptar aos novos tempos. A ida, provisória ou definitiva para o estrangeiro, surgiu naturalmente no espírito de muitos. Outros tinham-se entrincheirado fortemente nas novas estruturas criadas pelo Processo Revolucionário, o Estado tentava restruturar-se. Fora eleito em Novembro de 1985 um novo Primeiro-Ministro, Cavaco Silva, e em Março de 1986 um novo Presidente da República, Mário Soares.
Uma feroz guerra civil fora dificilmente evitada, estava-se à procura de novas fórmulas. Eu, jornalista no Diário de Notícias, já com carreira avançada, tinha perdido ali o meu lugar e partira para França, Bélgica, Holanda e Inglaterra à procura de nova vida. Aí melhorei as minhas aptidões para o exercício da tarefa de crítico e jornalista, embora experimentando duras privações, que só aumentaram a minha resistência e coragem. No regresso fui acolhido na Direcção-Geral do Ensino Superior, onde permaneci longo tempo, a familiarizar-me com dossiês das artes do espectáculo. Um dia, inesperadamente, fui chamado ao gabinete do ministro da Educação Nacional, Vítor Crespo, onde o titular da pasta me informou de que tinha de assumir a direcção do Conservatório Nacional, onde iria substituir o senhor engenheiro Luís Casanovas, que curiosamente pertencia ao Comité Central do Partido Comunista.
Passei a dirigir-me para o Bairro Alto, onde se situa o velho edifício do Conservatório Nacional, diminuto na altura para acolher as cinco escolas – Música, Teatro, Dança, Cinema e Educação Pela Arte – que o constituíam e eu passei a dirigir.
A viver à rédea solta há alguns anos, quer do ponto de vista pedagógico quer do das finanças, era hercúlea a tarefa que tinha pela frente. Acabei por me demitir cerca de dois anos depois, quando me recusei a viver sem livro de contas, após o ministério ter ordenado uma sindicância ao trabalho dos meus antecessores, concluindo pela existência de um “buraco” de alguns milhões de escudos.
Oriundo de uma família onde havia gente ligada ao teatro não admira que, desde muito novo, logo que comecei a escrever profissionalmente, essa fosse matéria da minha predilecção. Trabalhei como assessor de Amélia Rey Colaço durante um quarto de século no Teatro Nacional D. Maria II. Aí fui surpreendido por uma onda de entusiasmo no sentido de ser criada uma estrutura de apoio social a gente do mundo do espectáculo. Fora as cabeças de cartaz, que ganhavam bem, as remunerações dos outros artistas e pessoal de cena eram modestas. E, chegada a velhice ou a doença, tudo se complicava.
Eu era, desde há muito, grande amigo de Raúl Solnado. Ao regressar de uma longa permanência no Brasil, onde trabalhara como grande vedeta que era, Solnado colhera ali a ideia de criar em Portugal essa tal estrutura de apoio social aos artistas. Outra grande amiga de sempre é Carmen Dolores, ligada à minha família pelos laços de amizade de seu irmão e cunhada, António Sarmento e Maria Schultz. Carmen Dolores estivera alguns anos em Paris acompanhando o seu marido engenheiro Vítor Veres, que fora director-geral da Aeronáutica Civil e partira para desempenhar idênticas funções na capital francesa. Ao regressar, também ela vinha imbuída da ideia do apoio social aos artistas, colhida no exemplo francês. Simultaneamente, em Lisboa, germinava já idêntica ideia, conduzida pelo actor Armando Cortez e sua mulher Manuela Maria, que ainda hoje continua na Direcção da Casa do Artista.
Não foi difícil reunir todas essas vontades e começar a trabalhar junto dos cidadãos e das entidades oficiais para garantir o seu apoio na criação das estruturas necessárias. Todos os artistas, sem excepção, se empenharam em peditórios públicos e espectáculos e ainda hoje actrizes como Cecília Guimarães recordam as caixas cheias de moedas que conseguiam obter diariamente nos peditórios de rua, onde as pessoas recebiam calorosamente a iniciativa. O primo de Raúl Solnado, Pedro Solnado, tratava já da parte administrativa do muito trabalho que era preciso fazer, Mimi Gaspar e Tomé de Barros Queiroz, estrelas da música ligeira, Octávio Clérico, figurinista e cenógrafo de renome, elencos inteiros de companhias de teatro e de dança, a própria Amélia Rey Colaço, sua filha Mariana Rey Monteiro e a insigne Palmira Bastos trabalhavam com denodo na angariação de fundos junto do público. A popular Beatriz Costa, vedeta querida do Parque Mayer, não parava e o bolo ia crescendo com leilões e espectáculos diversos. Não houve artista, do mais modesto aos de topo, que não trabalhasse para aumentar o bolo e até Amália Rodrigues e Hermínia Silva trouxeram à causa o contributo das casas de fado.
Contagiadas por este entusiasmo colectivo, as entidades oficiais também aderiam à iniciativa. O então presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Kruss Abecassis, pôs à disposição dos organizadores uma parcela de terreno municipal, em Carnide, para ali ser implantado um edifício destinado ao lar que se propunha. O então primeiro-ministro, Cavaco Silva, embora com o ar reservado que é o seu, apoiou vigorosamente a ideia, tendo o seu ministro Bagão Félix facilitado toda a matéria legal, logística e orçamental, para tornar realidade aquele sonho.
Ao fim de treze anos de luta, o complexo estava finalmente pronto a habitar (1999).
Com trinta e dois anos de idade e grandes serviços já prestados, a Casa do Artista, onde vivem cerca de setenta profissionais do espectáculo, desde a costureira ao electricista, técnico da luz e som, carpinteiro de cena, actor ou actriz, bailarino, cançonetista, fadista músico ou artista de circo têm ali o seu lugar.
O terreno cedido pela CML era enorme, o dinheiro ia aparecendo, e surgiu então um magnífico conjunto arquitectónico que consta de um teatro, grandes salas, onde está a biblioteca, a fisioterapia, cabeleireiro, salas de estar e de jantar e os quartos e casas-de-banho dos residentes. Anexo ao Teatro Armando Cortez estão grandes salas para o ensino adequado e prática de canto, arte de dizer, dança ou outras especialidades. Qualquer pessoa pode arrendar temporariamente esses espaços para trabalhar, apresentar um livro ou exposição e são bem vindos os proventos assim destinados à Casa do Artista, para garantir um cada vez melhor tratamento proporcionado aos que ali vivem e gozam assim os benefícios de uma velhice cuidada e feliz ou um merecido repouso em caso de doença.
Eu, pessoalmente, sinto-me feliz por ter podido contribuir com o meu modesto trabalho profissional ou intercedendo junto de amigos para que aquela casa, rodeada de jardins e arvoredo, seja um oásis onde a felicidade terrena se torna o mais completa possível.”

Luís D’ Oliveira Nunes