De Luís Osório para Casa do Artista

De Luís Osório para Casa do Artista

POSTAL DO DIA

“Maria José Valério está segura
(no lugar onde fará o seu último grande papel)

1.
Ontem, pouco tempo depois de ter publicado o texto em que falava da dramática situação de Maria José Valério, recebi uma mensagem de Luís Moreira, membro da direção – “olha, a Maria José já está na Casa do Artista, estamos muito contentes por tê-la connosco”.

2.
A Casa do Artista tem vinte anos. Foi obra de uma ideia de Raul Solnado e da enorme capacidade e paixão de Armando Cortez. Eles eram do tempo em que ser artista era uma definição possível para “má vida”. Eram do tempo em que ser artista não garantia qualquer tipo de segurança, podia trabalhar-se uma vida, mas era um trabalho que o Estado não reconhecia… muitas dezenas de grandes artistas portuguesas, alguns que marcaram o seu tempo, acabaram as suas vidas na rua de mão estendida.

3.
Passaram muitos anos e os artistas continuam, por estranho que nos possa parecer, a ser vistos de lado. Os mais mediáticos ficam bem no retrato com políticos, mas continuam a ser vistos como uns tipos um bocadinho esquisitos. Nas suas teatradas, nos seus saraus poéticos, nas suas festas, na sua excentricidade, são gente à parte. Gostam de os ver no palco, evitam tê-los perto. Se formos justos, a generalidade das famílias continua a não projetar uma vida de artista para os seus filhos. Quem deseja uma vida dependente e instável? E quantos de nós não continuam a vê-los como inúteis?

4.
A arte não tem importância nenhuma. E é essa a importância que tem. Falar, pensar, representar, pintar, especular e desafiar as pessoas, a comunidade, o povo, a ser mais, a querer mais, a desejar mais. Os artistas são os que falham, mesmo quando têm os aplausos. A sua condição é a da falha humana, do questionamento, da dúvida. São gente fora deste mundo onde quem é valorizado é sempre que não falha, quem não questiona, que não tem dúvidas.

5.
É por isso que a Casa do Artista é ainda mais fundamental. Porque existe para amparar quem foi capaz de viver várias vidas. Gente que representou, que cantou, que escreveu, que engoliu fogo no circo, que declamou, que dançou. Gente que foi aplaudida e que deixou de ser aplaudida. Gente que cantou e perdeu a voz. Gente que deixou de poder representar papéis no teatro. Gente que foi esquecida depois de ter sido celebrada com bravos e pateadas. Gente que, como a Maria José Valério, ficou abandonada em casa sem que ninguém desse pela falta. Entregue ao vazio e ao silêncio.

6.
A Casa do Artista é uma obra extraordinária. Um lugar onde, como disse Cortez, a ninguém é permitido envelhecer. Um lugar onde os que lá estão não sentem o tempo passar, um lugar de memória, aplausos e dignidade. A dignidade de poderem representar um último papel que respeite o tanto que deram. Que respeite a enorme quantidade de coisas pouco importantes que ajudaram o país a ser mais. Devemos isso aos mais de 70 artistas que todos os dias adormecem sem medo do silêncio.”

Luís Osório