“Uma Casa de Artistas” – por Francisco Moita Flores

“Uma Casa de Artistas” – por Francisco Moita Flores

UMA CASA DE ARTISTAS

Era tão puto, Santo Deus! Almoçávamos com o radio ligado, atentos à hora em que iria começar o folhetim. Escutávamos o indicativo e fazia-se silêncio. Ao contrário da televisão, que apareceu bem mais tarde e pede distância, a rádio aproxima-nos. Precisamos de ouvir e de imaginar aquilo que escutamos. A minha mãe encostava o ouvido. O meu pai voltava-se na cadeira, olhos postos no aparelho como se pudesse ver, e eu, calções sujos de tanto brincar, sentava-me no chão entre os dois, quase em oração, pedindo a Deus que Isolda voltasse para os braços de Tristão, que Maria não morresse na despedida dramática dos seus pais, Sousa Coutinho e Madalena, suplicando para que os maus fossem castigados e os bons se tornassem felizes para sempre. Quando era puto, julgava que a felicidade era um estado que se perpetuava até à eternidade, descuidado do ruído que habita a vida de cada um de nós.

Foi na rádio que descobri o teatro. A magia da transfiguração. Os mistérios da entrega a um personagem que apenas está escrito num guião. E, de repente, dar-lhe alma e movimento. Paixões e loucuras. Guerreiro e cobarde. Rainha ou escrava. Depois tudo sossega. O personagem regressa ao silêncio do guião e quem lhe deu vida recupera a sua qualidade de cidadão.

Depois veio a televisão. Ainda era puto. Ficávamos embasbacados a vê-los já com corpos e gestos. Gente que viajava pelo caminho imaginado entre as estrelas, que nos fazia chorar e sorrir e rir e aplaudir e tremer de fascínio ao conhecer tantos heróis.

Sonhava ser como eles. Um sonho incumprido por um ensaiador que me condenou com meia dúzia de palavras: Não tens talento. Dedica-te à escrita!

Passaram muitos anos desde esses dias mágicos da descoberta. Corri à procura de palcos, onde pudesse ver representar, por todo o mundo. E sempre o mesmo fascínio. E desistindo de pertencer a esse universo de deuses, seguira o conselho daquele ensaiador que me matou as esperanças, e escrevia. Escrevia sem cessar. Inventava os meus personagens, dava-lhes vida, oferecia-os a escolas e a teatros do meu tamanho, só para sentir o milagre da transfiguração.

Passou tanto futuro desde esses primeiros dias! Hoje, olho essa viagem com nostalgia e ternura. Passou a ser uma estrada feita de passado. Uma estrada feita de palavras, de milhões de palavras representadas pelos meus heróis, debruadas pela música e pelo canto dos artistas que as adornavam, pintadas pelo talento dos encenadores e cenógrafos que nelas pegaram. E quando tudo aconteceu já não existiam ensaiadores.

Dezenas, talvez centenas de actores e de actrizes disseram as palavras que escrevi. Levantaram das páginas os personagens que inventei, dando-lhe parte tão grande de si próprios que, agora, quando já entardeço, oferecem-me a honra de presidir à Assembleia Geral da Casa do Artista. Comoveu-me o convite. Aceitei com gratidão humilde. E cada vez que entro neste espaço onde habitam os mágicos heróis que desenham o fantástico e o imaginário da Cultura portuguesa, sinto-me o puto de calções, rendido de espanto, aos amores de Romeu por Julieta que o rádio nos entregava nesses dias já tão longínquos do teatro radiofónico.

A Casa do Artista é isto. Um imenso abraço! Um mar de gente e de memórias, onde o talento mora em perpétua inquietação.

Francisco Moita Flores

 

Fotografia: Espinho TV