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“THEATROS” de Flávia Junqueira

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"THEATROS" de Flávia Junqueira

Mais de 1000 pessoas visitaram, em apenas oito horas, a exposição imersiva de Flávia Junqueira que decorou o Teatro Tivoli BBVA, no passado sábado, dia 27 de julho, com mais de 1000 balões.

A entrada para a exposição, que esteve patente pela primeira vez em Portugal, foi feita mediante um donativo que totalizou 2 943€ que reverteram, na totalidade, a favor da APOIARTE – CASA DO ARTISTA

Os icónicos cenários criados pela artista Flávia Junqueira, imortalizados em formato fotográfico, ganharam assim vida no Teatro Tivoli BBVA, numa viagem integrada na série “Theatros”, que despertaram a atenção e interesse dos visitantes, num convite para uma viagem à alegria através da simplicidade do imaginário da artista.

*Texto de uau.pt 

 

Fica a conhecer um pouco do processo de montagem da exposição através do vídeo em timelapse no botão

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Obrigada NOS ALIVE

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OBRIGADA NOS ALIVE, EVERYTHING IS NEW E HEINEKEN

À semelhança do ano passado, a organização do NOS ALIVE em parceria com a marca Heineken, voltaram, nesta edição a ativar a iniciativa de recolha de copos reutilizáveis, que revertem a favor de causas sociais e ambientais.

Os copos recolhidos foram convertidos em valor de donativo para a Associação Brigada do Mar, para a Cerci Oeiras e para a APOIARTE – Casa do Artista.

Em 2023, registaram-se mais de 27.000 copos recolhidos, um aumento de 39% face ao verificado na edição de 2022.

Este ano, no festival NOS ALIVE de 2024, 34.467 copos!

Foram colocados dentro e fora do recinto pontos de recolha identificados para que os festivaleiros pudessem deixar o seu copo. Para além da comunicação que é feita nas redes digitais quer da marca Heineken e dos seus influencers, quer da Everything is New, a Associação Brigada do Mar tem tido um papel de extrema relevância nos números alcançados de recolha de copos, através da presença com voluntários durantes os dias do Festival que ajudam a recolher copos no recinto e incentivam os festivaleiros a doar o seu copo para boas causas.

Um especial agradecimento ao nosso associado Ricardo Raposo que fez questão de estar no terreno a promover a ação a favor da Casa do Artista.

Aqui deixamos o nosso maior agradecimento às entidades envolvidas na organização do evento pelo apoio e pela confiança!

Obrigada, NOS ALIVE!

Obrigada, Everything is New!

Obrigada, Heineken!

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Obras no Teatro Armando Cortez

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Obras Teatro Armando Cortez

OBRAS NO TEATRO ARMANDO CORTEZ

Com o arranque em julho e continuação dos trabalhos nos meses de agosto e setembro, o Teatro Armando Cortez encontra-se encerrado para obras de requalificação e melhoria das estruturas (Plateia e Palco).

Com uma nova lotação de até 338 lugares, o Teatro Armando Cortez estará devidamente equipado com um amplo palco, camarins, foyer com bar, bengaleiro e todo o equipamento necessário à realização de diferentes atividades.

Este é um espaço polivalente que para além da apresentação de peças de teatro, dança ou música, pode também acolher outros eventos como palestras, conferências ou congressos.

 

É de se destacar que o Teatro Armando Cortez, assim como a Galeria de Raul Solnado e o Centro de Formação, são valências da APOIARTE que servem de reforço financeiro à Residência Sénior!

 

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O Amante do Meu Marido

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O AMANTE DO MEU MARIDO

Asdrúbal sonhou toda a vida ser actor. A sua mulher Constança sempre ridicularizou esse sonho e quer que ele venha ajudá-la no seu novo negócio de lingerie “antes que cometa mais loucuras…”.  

Asdrúbal determinado a seguir o seu sonho dá tudo de si numa audição que grava em vídeo para um papel muito especial… o de “bicha louca”.  

A sua mulher entra em casa nesse momento e assiste a tudo, ficando convencida de que Asdrúbal tem um amante chamado Arnaldo. 

Nesse mesmo dia bate à porta um homem distinto, um tal… Arnaldo… Vem tentar seduzir a dona da casa por quem sente uma atracção irresistível.  

A criada Marilyn, que sonha em vencer o concurso de misses do clube da freguesia e em encontrar o amor da sua vida, abre a porta e convence-se que aquele senhor vem à sua procura. 

Constança acredita que este Arnaldo é o amante do seu marido e… a vingança serve-se fria! 

Os equívocos explodem numa escalada de peripécias hilariantes, com diálogos loucos e autênticas perseguições absurdas pela casa fora.  

Uma verdadeira “comédia de portas” delirante onde todos se enganam e se desenganam no final. 

 

Elenco: Marta Andrino, Frederico Amaral, Rita Simões e Paulo Matos 

Texto: Rodolfo da Rocha Carvalho 

Encenação: Paulo Matos 

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AGENDA TEATRO ARMANDO CORTEZ

Solteira Casada Viúva Divorciada

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SOLTEIRA CASADA VIÚVA DIVORCIADA

Para comemorar 20 anos de carreira, Melânia Gomes apresenta-nos quatro mulheres muito especiais.
Vera, solteira, trabalha num serviço de apoio telefónico a vítimas de solidão… mas o que ela gostava mesmo era de ter alguém que a apoiasse a ela!
Carmo, casada, descobre a traição do marido e pondera seriamente tornar-se acompanhante de luxo… mas falta-lhe vocação!
Celeste, viúva, tenta explicar em tribunal a bizarra sucessão de acontecimentos que levou à morte do marido… e como, de caminho, conseguiu finalmente dizer um palavrão!
Catarina, divorciada, já tentou encontrar o homem certo. Várias vezes. Mas a única que está sempre certa é ela, porque os homens estão sempre errados!
E todas elas são Melânia Gomes, numa viagem vertiginosa ao Planeta das Mulheres!
“Solteira Casada Viúva Divorciada” é uma comédia delirante.
Uma visita guiada a cada estado civil com uma atriz em estado de graça, que vai deixar tudo em estado de sítio!

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AGENDA TEATRO ARMANDO CORTEZ

Não estavas capaz, não vinhas!

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ANA ARREBENTINHA | NÃO ESTAVAS CAPAZ NÃO VINHAS!

“Não estavas capaz…não vinhas” é uma viagem cómico-icónica-irónica pelos recantos da vida da humorista Ana Arrebentinha, desde a sua infância na Amareleja até aos hilariantes percalços familiares e amorosos da sua vida adolescente e claro, os inesquecíveis anos 90 ! Quem não se lembra dos desafios da tecnologia discada ou das intrigas românticas pré-Tinder?
 
“Não estavas capaz…não vinhas” não é só mais um espetáculo de comédia, é uma celebração de situações hilariantes que todos nós enfrentamos ao longo da vida.
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AGENDA TEATRO ARMANDO CORTEZ

TITA (Neto Julieta Reis) – Nós nos Outros

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por Maria Helena da Bernarda

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TITA (Neto de Julieta Reis)


(publicado a 26 de dezembro de 2023)

1|2 O GRANDE TITA - Uma vida a combater

“A minha aparência é a minha farda, e o meu nome - Vitor Matos - foi substituído por Tita Matos, por herança do meu pai. Sei que posso assustar pessoas, mas quem fala comigo perde logo o medo. Sou amável e facilmente dou um abraço.

Acabei de sair do ginásio e vim num pulo à Casa do Artista ver a minha avó. Desde que ela entrou há um mês, faço por vir todos os dias, às vezes mais do que uma vez, e regresso a seguir ao ginásio, onde pratico e dou aulas de Boxe e Kickboxing. Trabalho ainda como segurança.

Nasci há 43 anos na Madragoa, numa família de fadistas: a minha mãe, a minha avó, o meu avô, todos cantavam. Sinto-me um fadista de alma, mas não canto. Quando conduzo, tenho o rádio sempre na estação Amália. O fado é mais do que um estilo musical, é um estado de espírito e uma forma de vida.

Os meus pais foram ambos toxicodependentes desde cedo. Foi a minha avó Julieta, mãe da minha mãe, que me criou desde bebé. A dependência deles nunca foi ultrapassada. Não foram capazes de viver. Ambos puseram termo à vida, em momentos diferentes. O meu pai há 12 anos, tendo deixado uma carta e dinheiro para o seu funeral. A minha mãe foi há 7 anos. Mesmo fadista, nem a música a resgatou. Quero pensar que eles estão agora num lugar de conforto. Nunca houve um corte de relações entre nós. Mas quando o meu pai me aparecia pedrado nos locais onde eu dava aulas, eu tinha de me impor para que ele não viesse perturbar. Acredito que quando eu era muito bebé, talvez eles me tivessem amado, mas dessa fase, infelizmente, não me lembro. Só recordo os anos maus. A fraqueza dos dois provocou a minha repulsa às drogas. Comecei a trabalhar aos 15 anos, altura em que passei também a treinar, inicialmente Kickboxing, full contact. Comecei em peso pluma e fui evoluindo até combater em pesos pesados. Durante esse processo, fui campeão regional e nacional em várias categorias de peso.

Os títulos mais importantes, conquistei-os em 2017, já com 36 anos e na categoria de Super Pesado: fui campeão ibérico e da Europa, e ainda campeão do Mundo em três modalidades: K1 (conhecida como a disciplina rainha do Kickboxing), Low-Kick e Boxe Chinês.”

(continua)

Tita 1


(publicado a 27 de dezembro de 2024)

2|2 O GRANDE TITA - A minha avó

(continuação)

“Apanhei a tropa no último ano em que era obrigatória e vim de lá ainda mais possante. Não me regozijo do físico que desenvolvi, mas dos muitos amigos que lá ganhei e ficaram para a vida.

Continuo a combater. Há pouco fui a França e defrontei-me com uma torre de 2,12m, quando eu só tenho 1,80 de altura. Tenho de apostar menos na resistência e mais na estratégia. Há tantos campeões portugueses no Kickboxing, infelizmente desconhecidos no nosso país porque Portugal só valoriza o futebol.

Com muita pena minha, os meus pais nunca festejaram as minhas vitórias, ao contrário da minha avó, que as acompanhou de perto com grande felicidade. Mas pensei muito neles e no que eu teria gostado de os ver orgulhosos de mim.

Prefiro pensar em aproveitar a minha avó todos os dias, enquanto a tenho. Ela já sofre de demência e há muitos dias em que não me reconhece. Mas reconheço-a eu todos os dias e é também por mim que aqui venho.

A minha avó foi uma sofredora: perdeu a minha mãe e também um tio meu, mais recentemente. Ela vivia com ambos e foi ela que deu com os seus corpos sem vida. Não tenho mulher nem filhos. Tive uma namorada com quem vivi durante 12 anos em casa da minha avó. Começámos muito miúdos. Ela era tratada como uma neta mais. Mas a vida e os diferentes horários esvaziaram a relação. Eu trabalhava de noite como segurança. Quando chegava a casa, estava ela a sair para o trabalho. Por respeito à minha avó, nunca lhe apresentei mais ninguém porque nenhuma outra valeu a pena. Hoje, é ela a única pessoa de família que me resta.

Infelizmente, quando a fui visitar a casa há um mês e pouco - já com diagnóstico de demência - e a vi caída no chão, percebi que não poderia continuar a viver sozinha. Ainda bem que existe a Casa do Artista, um destino que ela sempre desejou e onde sei que está bem. Esta está a ser uma etapa nova para ambos. Quando me passa pela cabeça que o seu fim possa estar próximo, afasto logo o pensamento. Nunca se está preparado para perder quem se ama desta maneira.

A minha avó é a minha heroína, a quem devo os valores do respeito e da lealdade; e tudo o que sou hoje! Acho mesmo que já não há gente assim!"

Maria Clementina – Nós nos Outros

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por Maria Helena da Bernarda

Maria Clementina 1

MARIA CLEMENTINA


(publicado a 3 de janeiro de 2024)

1|2 MARIA CLEMENTINA - A mãe
“Nasci em Setúbal há 87 anos, num contexto familiar adverso. Fui a terceira filha e a única sobrevivente. Os bebés que me antecederam faleceram cedo. Na altura nem se sabia de que morriam os bebés. Nunca os vi. Fiquei filha única. Os meus pais não se davam bem. Não se entendiam de maneira nenhuma e separaram-se quando eu tinha 10 anos.
Passaram um ano a discutir com quem é que eu ficava. A mim não me perguntaram com quem queria eu ficar, porque naquela altura não se dava qualquer importância à vontade das crianças. Acabaria por ficar com a minha mãe em Setúbal. Como o meu pai tinha família em Lisboa, ele foi viver com as irmãs. E era em casa delas que eu passava algum tempo das minhas férias, para ficar perto do meu pai.

Não me sentia feliz com o casamento conflituoso dos meus pais, mas também não posso dizer que passei a sentir-me feliz após a sua separação. Na verdade, nunca me senti feliz em fase nenhuma da minha vida, senão por breves momentos muito raros.

Nunca casei, porque a minha mãe era muito possessiva. Após a sua separação, eu era a sua única companhia, de quem ela não queria abdicar. Embora eu percebesse isso, a verdade é que acabei por me sentir responsável por ela, um dever moral que não me permitia abandoná-la.

Eu até tinha tendência para ser namoradeira, mas a minha mãe opunha-se sempre. Eu esbarrava invariavelmente com esse entrave, pois ela não queria partilhar-me com ninguém. Então, eu própria acabava os namoricos mal despontavam.

Quando atingi a maioridade, o meu pai conseguiu que eu me candidatasse a um emprego no Ministério das Corporações e Segurança Social, em Lisboa. Lá trabalhei a minha vida toda, durante muitos anos como chefe de secção.

As melhores recordações eram o tempo de libertação que eu passava diariamente sentada no autocarro entre Lisboa e Setúbal. Era um tempo só meu. Como eu gostava daquele escape.

Reconheço que tive sempre uma certa dificuldade em me relacionar com as pessoas, até mesmo com os colegas de trabalho. Tinha complexos. Lembro-me de se aproximar o Natal e eles contarem que a família se juntava - avós, tios, primos - e eu não tinha ninguém, a não ser a minha mãe!”

(continua)

Maria Clementina 2


(publicado a 4 de janeiro de 2024)

2|2 MARIA CLEMENTINA - Só dentro de mim

(continuação)
“Recordo que o meu pai alimentava o Natal sugerindo que eu escrevesse uma carta ao pai Natal, que resultava numa prenda no sapatinho. Com a sua partida, a minha mãe nunca o faria. Não mais houve Natal nem presente.

A minha mãe não era fácil e nunca foi feliz: com uma mãe austera, a perda de dois filhos e o divórcio, como poderia sê-lo? Se eu era vítima de circunstâncias, ela também.

Vivi com a minha mãe até ela falecer, com muita idade. Também o meu pai faleceu com 96 anos. Recordo que, já com sessentas, um dia me chamou para me pedir uma opinião: as irmãs estavam muito idosas e ele desejava casar com uma senhora sua conhecida, 10 anos mais nova, para o acompanhar na velhice. Claro que aprovei, ainda que a minha ligação com essa senhora nunca fosse equiparada à que tinha com os meus pais. Reconheço que nunca fui fácil nem simpática, por ser tão fechada. Nem eu gostava de mim própria. Sinto que afetivamente tive uma vida árida, vazia. As minhas alegrias eram as viagens entre a casa e o trabalho, e o Teatro, que surgiu na minha vida quando eu tinha 20 e poucos anos.

Um dia, um antigo colega de escola desafiou-me a criar um grupo de teatro em Setúbal. Ele já era interessado pelo teatro, mas eu não. Aí, a minha mãe não se opôs por uma razão: porque ela gostava do mundo do espetáculo - queria ter sido cantora - mas fora impedida pela minha avó. Só por isso não me contrariou. Além do teatro, eu integrava grupos de poesia, tendo escrito dois livros de poesia. Criámos então o grupo de teatro Ribalta. Além de funções de Direção, ensaiava todas as noites e representava aos fins de semana. Em palco, eu conseguia não ser eu, mas alguém muito melhor, com outras facetas: mais nova, mais velha, a rir ou a chorar. Outra!

Um dos papeis relevantes foi quando o La Féria me escolheu para fazer o papel da Maria Barroso, numa homenagem ao Mário Soares. A minha última atuação creio que foi no TAS - Teatro Animação de Setúbal - dirigido pelo Carlos César. Ele já faleceu, tal como os meus escassos amigos. Essa é a minha maior tristeza.

Feito o balanço da minha vida, defino-me como uma pessoa só. Sempre fui só, dentro de mim.”

Óscar Cruz – Nós nos Outros

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por Maria Helena da Bernarda

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ÓSCAR CRUZ


(publicado a 28 de dezembro de 2023)

1|2 ÓSCAR CRUZ - Só o Cinema

“Fiz 85 anos em liberdade, até entrar na Casa do Artista em Abril passado. Sempre prezei a minha integridade, ainda que para tal tenha mudado de rumo várias vezes, consoante os ‘acidentes’ me aconteciam. Só o cinema me agarrou verdadeiramente: fui Assistente, Produtor, Maquinista, Intérprete, Argumentista, fiz Iluminação, Direcção de Produção…, quase tudo o que era possível fazer!

Nasci em 1938, um ano antes de eclodir a II Guerra Mundial. A infância não foi fácil pois havia falta de tudo no país, incluindo bens alimentares.

Após a 4ª classe fui trabalhar para uma oficina do meu tio e padrinho, com o fito de entrar na escola industrial e seguir para a Marinha, já que o meu pai era da Marinha de Guerra e o meu tio da Marinha Mercante.

Fiz o curso de Mestrança, tendo passado mais de 5 anos na pesca do bacalhau, a bordo do Navio-Hospital Gil Eannes, pelas costas frias do Canadá, Gronelândia e Noruega.

O Parque Mayer era-me familiar, pois era lá que ficava o barbeiro do meu pai, para onde ele me levava aos fins de semana. Um dia, tinha eu 23 anos e de férias em Portugal, fui ao barbeiro, onde conheci um director de produção cinematográfica. Estava a fazer um filme espanhol com a Marisol e o João Perry. À ultima hora, o João falhou e a pessoa que ele encontrou mais parecida era eu. Não perdeu tempo em convidar-me para o papel. Disse-lhe que não tinha escola de teatro, ao que me respondeu: ‘Não se preocupe! A gente resolve!’

Ao terceiro dia, o gerador que fornecia energia aos projectores pifou e a pessoa que tratava desses arranjos não estava. Fazendo uso do meu conhecimento adquirido na Marinha, meti as mãos na máquina e arranjei aquilo. Ao fim do dia, o dono da Cinemate, detentora das máquinas, convidou-me a trabalhar como grupista (*) durante a gravação daquele filme. E, por este acidente, ao Cinema ficaria ligado para sempre, cada vez com mais responsabilidades. Trabalhei com o António da Cunha Telles, designadamente n’O Cerco. Neste filme, onde deveria entrar o João Perry, mais uma vez ele não apareceu, desta vez por ter sido mobilizado para a Guiné. Acho que só então posso dizer que começou a minha carreira no cinema.”

(continua)

Oscar Cruz 2


(publicado a 29 de dezembro de 2023)

2|2 ÓSCAR CRUZ - Sorriso Fatal

(continuação)

“Atuei em 10 filmes, mas foi como produtor que me destaquei. Fiz, com o Francisco Manso, a série televisiva de oito episódios ‘A Epopeia dos Bacalhaus’. Esta série é hoje um importante documento inédito, de que me orgulho. O meu último trabalho mais importante foi ‘A Selva’, realizado pelo Leonel Vieira e filmado na Amazónia, já lá vão 20 anos.

Dediquei-me ao cinema português mas não enriqueci, porque ninguém enriquece nesta profissão. Vivo de uma baixa reforma, que é quase toda entregue à Casa do Artista. Mas não me queixo. Não perdi o que não tinha, ao contrário dos cineastas como o Cunha Telles, que tiveram de vender o seu património para aguentar o cinema português.

A minha vida amorosa, como a profissional, foi agitada. ‘Casei’ seis vezes, duas das quais oficialmente. Todas elas foram mulheres importantes na minha vida, em particular a mãe das minhas duas filhas. Tenho ainda um filho, nascido fora de uma relação estável.

Não sei dizer se sou mulherengo, mas verdadeiro fui. Sou um homem e, sabe como é…, acontece um sorriso, uma troca de olhares, as duas partes atraem-se…. Não me reconheço como o mau da fita. Vivi sempre relações com muita liberdade mútua. Nunca fui de apertar ninguém nem de me sentir apertado. Nunca menti, ainda que algumas vezes tivesse de pagar o preço. Mas convivo mal com a mentira. A minha última relação, de 14 anos, terminou após vivermos dois anos numa caravana no parque de campismo da Caparica. Em plena Covid, apanhei uma ciática e percebi que precisava de trazer mais conforto à minha vida. Ela, brasileira, regressou ao seu país e eu entrei aqui na Casa. Eu já não posso proporcionar uma vida de casal a uma mulher. Mantemos uma amizade, falamos ao telefone, mas não mais do que isso.

Não lamento nada do que fiz. Preferia não ter cometido alguns erros, mas com eles aprendi a olhar, escutar, analisar e a respeitar o próximo, especialmente o mais fraco. Para mim, as pessoas contam muito!

Vivi intensamente e saber isso não me entristece; pelo contrário, conforta-me. Tenho plena consciência de que vim para aqui, não para recuperar a saúde mas para preparar a morte. E estou bem com isso!”

Carlos Paulo | Nós nos Outros

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por Maria Helena da Bernarda

Carlos Paulo 1

CARLOS PAULO


(publicado a 5 de janeiro de 2024)

1|2 CARLOS PAULO - a minha vida
“Há seis meses sofri um AVC, no teatro A Comuna, em pleno palco. Eu fazia a última parte da peça sentado numa cadeira, falando com o público. Quando as luzes se apagaram, tentei levantar-me mas era como se a minha perna esquerda tivesse desaparecido. Não sentia dor, mas uma insensibilidade total. Ainda fui aos aplausos, amparado de ambos os lados, pensando que tinha tido uma cãibra.
Fiz reabilitação diária num centro perto de Mafra, onde estive internado, mas ali sentia-me deslocado, perdido. Consegui a admissão aqui na Casa do Artista e faço fisioterapia em Entrecampos. Estou o melhor que posso, mas longe de me sentir bem. É como se estivesse de fora de mim a assistir a isto, a este meu andar amparado num tripé, sem me reconhecer nele.

O AVC abalou-me também psicologicamente, porque me veio impedir de fazer uma das coisas de que mais gosto: caminhar! Para além disso, tirou-me a vontade para quase tudo, até a capacidade de ler. Sinto-me esvaziado. O meu esforço actual já não é só físico, é também não perder a intenção de ultrapassar isto, por causa do Teatro, que é a minha vida.

Faço Teatro desde os 16 anos. Quando não estou a atuar, caminho pelas ruas da cidade. Vivia sozinho, mas nunca fiz da casa um lar, apenas um abrigo onde eu pernoitava. Adorava deambular, observar pessoas e, quando se proporcionava, conversar com elas, inusitadamente. Eu sou de pessoas, não de coisas materiais. Tenho telemóvel só para atender chamadas e nem carro tenho. Duas palavras me definem: ator e caminhante. Adorava apanhar o metro no Rossio, sair na Alameda e descer a Almirante Reis a pé. É na rua que sinto o mundo, não dentro de casa.

Há quase 50 anos que tomo o pequeno almoço no Café Gelo, no Rossio, espaço de tertúlia de grandes intelectuais portugueses. Os empregados já nem me perguntam o que quero. Quando está um tempo agradável, venho fumar o meu cigarro fora.

Num desses dias amenos, vi uma senhora a gesticular. Olhou para mim e disse-me: ‘Eu não sou doida! Eu falo sozinha para não enlouquecer!’ Convidei-a para se sentar ao meu lado e estivemos duas horas e meia a conversar. Despedimo-nos num abraço, ela de lágrimas nos olhos.”

(continua)

Carlos Paulo 2


(publicado a 6 de janeiro de 2024)

2|2 CARLOS PAULO - Doze passas

(continuação)

“Eu vivo atento às pessoas e vejo que elas se cruzam num vaivém constante mas não se olham. Faz falta mais troca de olhares e ouvidos para escutar.

Gosto também de observar o comportamento humano porque isso enriquece a minha capacidade interpretativa. Eu tenho de conseguir colocar-me nos diferentes personagens com o maior realismo possível.

De todas as pessoas se aprende, porque são tão diversas quantas as que estão numa plateia a assistir. Costumo dizer aos jovens atores: quando uma sala está cheia, nós não sabemos a cor da pele, o sexo, a idade, a religião, a orientação sexual ou política. Ali, todas as pessoas são apenas seres humanos que respeitamos profundamente. Isso é que é bonito: o respeito pelo ser humano.

Nesse aspecto, o Teatro, como a cultura em geral, une as pessoas, não as divide. A única limitação é a dificuldade que os mais desfavorecidos têm de chegar a ela. Mas foi também por isso que eu e o João Mota fundámos A Comuna há 51 anos. Fizemos acordos com Juntas de Freguesia para facilitar o acesso a pessoas de baixa condição económica. O João foi o meu grande amor, com quem estive 18 anos. Fizemos vida conjunta, mas afastámo-nos porque já éramos mais irmãos que outra coisa. Foi de tal forma uma relação importante, que além de fundarmos A Comuna, ele adoptou como filho um sobrinho meu, na altura com 4 anos, com quem ainda vive.

Depois dele, já não voltei a fazer vida conjunta. Optei por ficar sozinho, mas não solitário. Tinha o Teatro, os transeuntes, os amigos - paixões que eu sublimo - um mundo para observar… e uma família maravilhosa.

Sou um de sete irmãos, todos próximos e ligados. O meu pai era ultraconservador mas a minha mãe compensava em tudo. Conheceram-se em África. Casaram tinha ela 17 anos, três meses depois de conhecer o meu pai, e viveram uma eterna paixão.

Ela foi exemplar na maneira como nos educou. Dizia sempre: ‘Eu tenho sete filhos, mas cada um é um.’ E tratava cada filho da maneira mais acertada, com respeito, sentimento que hoje une os irmãos.

Se o meu Natal ainda tem alegria, devo-o à família que tenho. Já as doze passas vão todas para o mesmo desejo: voltar a ser autónomo!”

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