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Consignação do IRS 2025

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Campanha Consignação IRS 2025

APOIARTE - Casa do Artista

 Simone de Oliveira e Juan Soutullo são as caras da nova Campanha de Consignação do IRS em 2025 para a APOIARTE – Casa do Artista

Ao consignar 1% do seu IRS, além de ter um Custo Zero para si, está a contribuir para a continuidade da missão da APOAIRTE – Casa do Artista.

Somos uma instituição que apoia e dignifica os Artistas e toda a Comunidade Artística em Portugal. Contribuir com 1% do seu IRS para a APOIARTE – Casa do Artista é motivar o desenvolvimento da inovação, do respeito, da consideração e do amor pela comunidade artística.

Basta preencher o modelo 3, quadro 11, campo 1101 [Instituições Particulares de Solidariedade Social] com o NIF 501 705 163

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FICHA TÉCNICA da Campanha IRS 2025

Artistas Convidados

Residentes Casa do Artista:
Simone de Oliveira
Juan Soutullo

Equipa Técnica (Captação de Imagens & Edição do vídeo Campanha)

Concept Media

Voz Off

José Raposo

Gravação Voz Off

Sonar Studio

Conceito Criativo

Ana Sécio, Frederico Corado

Produção, Comunicação & Marketing

Ana Sécio 

Fotografia

Rita Antunes

Design

Jonas Cardoso 

Cabelo & Maquilhagem

Danila

Direção APOIARTE – Casa do Artista

José Raposo (Presidente), Conceição Carvalho, Frederico Corado, Natália Luíza, Paulo Dias, Sofia Grillo

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As Minhas Histórias: Ao Domingo, com Isabel Mexia – Nós Nos Outros

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por Maria Helena da Bernarda

Aos domingos com Isabel Mexia 1 post

As Minhas histórias


(publicado a 19 de novembro de 2023)

AS MINHAS HISTÓRIAS… ao domingo, com Maria Isabel Mexia.

Inicio uma série semanal de pequenos textos de Maria Isabel Mexia, uma senhora que dedicou a sua vida profissional ao ensino da música, residente na Casa do Artista e cuja história publiquei nesta página.

A Isabel - assim a trato, simplesmente - tem um enorme talento para a escrita. Não escreve de forma rebuscada, mas transporta para os seus textos uma inteligência criativa, o seu olhar arguto, um educado sentido de humor e a naturalidade elegante que marca a sua imagem e forma de estar.

A Isabel é tia de Pedro Mexia, poeta, cronista, crítico literário, comentador político e consultor cultural do Presidente da República. Não obstante o exercício de tantas atividades, teve o Pedro a disponibilidade e a sensibilidade para reunir os textos da sua tia e publicar um livro de edição de autor, familiar, com o título “As Minhas Histórias”.

Tudo isto é bonito. Não conheço o Pedro, mas se já tinha admiração pela sua presença na cultura portuguesa, passei a admirá-lo ainda mais pela sua disponibilidade em valorizar, de forma tão bonita, os pequenos contos da vida real da sua tia.

A Isabel escreveu, o Pedro editou e eu sinto o impulso - que encaro como privilégio - de fintar a linha editorial desta página, publicando aos domingos, durante algumas semanas, os textos mais curtos desse pequeno mas lindíssimo livro de memórias.

Este primeiro será um dos mais pequenos contos, face ao tamanho desta introdução.

Muito obrigada à Isabel Mexia, ao seu sobrinho Pedro, à Casa do Artista por ser fonte inspiradora, e a vós.

MHB



NEGÓCIO DA CHINA

“Um amigo do meu pai disse-lhe que vendera uma certa propriedade por um preço que o meu pai achou exorbitante. Então o amigo, serrano manhoso, respondeu-lhe: ‘Eu disse ao comprador que ele tinha de me pagar duas coisas: a propriedade e a vontade que eu não tinha de a vender.”

MEXIA, Maria Isabel (2023) - “As Minhas Histórias”

Aos domingos com Isabel Mexia 2 post


(publicado a 26 de novembro de 2023)

NUNCA FIANDO

Quem tinha alguma coisa de seu, no princípio do séc. XIX e no vale do Mondego, pagava uma tença (*) aos bandos de ladrões para não lhes assaltarem as casas. E este contrato dizem que resultava bem.
A minha avó paterna, que era dali, dizia que a avó dela usava esse processo para ter descanso, e contava à neta o seguinte caso: um senhor foi pedir-lhe um favor, um tanto acanhado, e lá disse como pôde, com familiaridade estranha: ‘Olhe comadre, a minha filha vai casar, e casa muito bem. Vai ter melhor estatuto social, e como a comadre calcula, o meu não é grande coisa. Sabe, as pessoas têm a língua comprida. Eu quero fazer uma festa de casamento de acordo com a categoria que ela agora vai ter. Por isso, venho pedir se a comadre me empresta o seu colar de diamantes para ela usar nesse dia’. A comadre fez-lhe a vontade, e tudo correu na paz do Senhor.
O tempo passou. Um mês, dois meses, três… etc. Até que um dia o pai da noiva foi a casa da minha avó e disse-lhe: "Ó comadre, eu estou um tanto envergonhado e peço-lhe desculpa de não ter vindo há mais tempo, mas não imagina o que me aconteceu, a arrelia que eu tive. Quando a noiva saiu da igreja, tropeçou, e com o solavanco o colar partiu-se e os diamantes espalharam-se todos pela calçada, pela terra batida, e até pelas valetas. Não se encontrou nem um. Olhe comadre, digo-lhe que me fartei de trabalhar, meses a fio para reconstituir a jóia, até que finalmente consegui, e aqui lha venho entregar". Ela respondeu, pesarosa: "Ó compadre, não valia a pena incomodar-se, esse colar era o falso’.”

MEXIA, Maria Isabel (2023) - “As Minhas Histórias”

NR: (*) Pensão dada como remuneração de serviços prestados

Aos domingos com Isabel Mexia 3 post

(publicado a 10 de dezembro de 2023)

 

NO COMMENTS I

 

Eu era professora há pouco tempo, e estava a dar aulas no Liceu Rainha Dona Leonor, na Junqueira, no palácio onde nasceu o dramaturgo D. João da Câmara, onde estive muitos anos.
Numa manhã de Julho eu vigiava a prova escrita de Ciências Naturais do 7º ano. Estava sozinha, o que não era costume. Possivelmente não haveria mais ninguém disponível. Nessa época havia muitos alunos. Naquele liceu eram cerca de mil.
A sala desta prova ficava no sótão do palácio, que tinha sido improvisada para o devido efeito. Eu nem conhecia aquele sítio, o que não admira, pois segundo dizia Lampedusa “um palácio só é digno desse nome quando não se conhece todo”.
Como disse anteriormente, estava sozinha, os alunos concentrados a escrever. Cansada de olhar para o tecto “mansardé”, fui até à janela que dava para uma varanda, donde vinha um arzinho fresco. Havia ali vasos com flores e plantas variadas e reparei que estava, meio escondida, uma gaiola com um coelho lá dentro. Estranhei, e pensei que devia ser de alguma funcionária que o tinha ali deixado para depois o levar para casa e servir de pitéu à família. Impressionou-me o ar abatido do coelhinho, que nem era grande. Com o focinho caído, os olhos murchos, metia dó.
Arranquei então umas ervas grandes duns vasos e dei-lhas. O coelho comeu-as com sofreguidão e a pouco e pouco ficou mais animado. Fiquei contente, e achei que já tinha feito a boa obra desse dia. A prova acabou, e saí.
No dia seguinte tive outra vez serviço de exames. Quando terminei, fui ao bufete lanchar, como de costume. Ouvi então algumas pessoas falar sobre um caso que acontecera na véspera, no gabinete de Ciências Naturais, relativo ao material de exame, na prova prática do 7º ano: em Zoologia, era preciso um coelho adormecido, para poder ser analisado, e em vez disso, puseram um coelho viçoso e fresco; em Botânica, as plantas que deveriam ser classificadas, tinham desaparecido.
Eu, que já tinha lanchado, paguei e disse: “Até amanhã”.

 

MEXIA, Maria Isabel (2023) – “As Minhas Histórias”

Aos domingos com Isabel Mexia 4 post

(publicado a 17.12.2023)

 

O BIDÉ

 

Os meus pais cumpriam sempre a prescrição que a medicina dava às crianças: um mês na praia, todos os anos.
Como em casa deles houve meninos toda a vida, eu, que era a filha do meio, apanhei “ar do mar” suficiente até ao fim da minha existência.
A minha mãe ia sempre à Figueira no princípio do Inverno alugar uma casa. Ela era muito despachada e eficiente. Saía da Lousã às sete da manhã, e voltava ao fim da tarde, com a casa contratada. A minha mãe tinha três exigências para o aluguer dessa casa: o preço, o tamanho e o local. Às duas primeiras entendem-se as razões; e a outra é porque teria de ficar perto do mercado. Além de a minha gente comer muito, havia quase sempre mais pessoas à mesa. Por isso a minha mãe tinha de saber se a baixela da casa e os apetrechos de cozinha eram suficientes para confecionar e servir alimentos para comilões como aqueles, graças a Deus. E insistia neste ponto.
Andava a dona da casa a mostrar as instalações sanitárias, e chamou a atenção da minha mãe para um bidé, que a senhora gabou e de que exaltou as qualidades, neste caso a sua utilidade. Era objecto móvel, por isso levava-se para qualquer sítio. A dita senhora, pensando no aspecto prático da vida, disse que as famílias quando eram grandes e faziam arroz de tomate, lavavam o bidé bem lavadinho e serviam lá o arroz.
A Dona Maria Leonor não quis aquela casa.

 

MEXIA, Maria Isabel (2023) – “As Minhas Histórias” 

Aos domingos com Isabel Mexia 5 post

(publicado a 31.12.2023)

 

NO COMMENTS II

 

No princípio dos anos 40, após a viuvez, foi viver para Pereira, onde comprou uma quinta, uma senhora muito especial: a Ti’Ana. Ligada à minha família por afinidade, esteve muito presente nas nossas juventudes, sobretudo na minha. O marido era oficial do exército, Augusto Bettencourt. Este casal não teve filhos.
Depois da morte dele, ela resolveu sair de Lisboa, onde sempre tinha vivido. Era filha de uma ilustre família judaica, e sobrinha de Salomão Saragga, um do “grupo dos cinco”, célebre no século XIX. A cultura estava-lhe no sangue. Não é fácil descrevê-la em poucas palavras (as minhas irmãs, se quiserem, que o façam aos filhos). Eu limitar-me-ei a contar alguns episódios da sua vida, de que me for lembrando.
Uma vez na província, ela, lisboeta de gema, enfronhou-se na vida campesina, sem descurar os seus hábitos culturais que lhe fossem possíveis.
Perfeccionista por natureza, nas suas actividades rurais não fez excepção. Orgulhava-se das galinhas que criava com amor, e que davam uma canja que era digna de um manjar dos deuses. Com os ovos delas faziam-se uns ovos-moles (receita antiga) como não havia outros.
Resolveu ter um porco, e começou por comprar um leitão. Arranjou-lhe um curral especial, não sei lá com quê, que eu nunca o cheguei a ver. O porquinho, a que chamou Totó, crescia a olhos vistos. Mas ela não se conformava de o curral estar sempre tão sujo. Tentou vários processos, mas não resultou. Até que arranjou um tratador que lhe resolveu o problema: o curral estava sempre limpinho. Era um regalo para ela ter êxito nos empreendimentos que encetava.
Numa manhã qualquer, o tratador lá foi à sua tarefa. O Totó, assim que viu o homem nos preparativos para o tratamento habitual, o clister, e empunhando o irrigador e a cânula, revirou os olhos, flectiram-se-lhe as pernas e caiu. Foi-se.

 

MEXIA, Maria Isabel (2023) – “As Minhas Histórias” 

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TITA (Neto Julieta Reis) – Nós nos Outros

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por Maria Helena da Bernarda

Tita 2

TITA (Neto de Julieta Reis)


(publicado a 26 de dezembro de 2023)

1|2 O GRANDE TITA - Uma vida a combater

“A minha aparência é a minha farda, e o meu nome - Vitor Matos - foi substituído por Tita Matos, por herança do meu pai. Sei que posso assustar pessoas, mas quem fala comigo perde logo o medo. Sou amável e facilmente dou um abraço.

Acabei de sair do ginásio e vim num pulo à Casa do Artista ver a minha avó. Desde que ela entrou há um mês, faço por vir todos os dias, às vezes mais do que uma vez, e regresso a seguir ao ginásio, onde pratico e dou aulas de Boxe e Kickboxing. Trabalho ainda como segurança.

Nasci há 43 anos na Madragoa, numa família de fadistas: a minha mãe, a minha avó, o meu avô, todos cantavam. Sinto-me um fadista de alma, mas não canto. Quando conduzo, tenho o rádio sempre na estação Amália. O fado é mais do que um estilo musical, é um estado de espírito e uma forma de vida.

Os meus pais foram ambos toxicodependentes desde cedo. Foi a minha avó Julieta, mãe da minha mãe, que me criou desde bebé. A dependência deles nunca foi ultrapassada. Não foram capazes de viver. Ambos puseram termo à vida, em momentos diferentes. O meu pai há 12 anos, tendo deixado uma carta e dinheiro para o seu funeral. A minha mãe foi há 7 anos. Mesmo fadista, nem a música a resgatou. Quero pensar que eles estão agora num lugar de conforto. Nunca houve um corte de relações entre nós. Mas quando o meu pai me aparecia pedrado nos locais onde eu dava aulas, eu tinha de me impor para que ele não viesse perturbar. Acredito que quando eu era muito bebé, talvez eles me tivessem amado, mas dessa fase, infelizmente, não me lembro. Só recordo os anos maus. A fraqueza dos dois provocou a minha repulsa às drogas. Comecei a trabalhar aos 15 anos, altura em que passei também a treinar, inicialmente Kickboxing, full contact. Comecei em peso pluma e fui evoluindo até combater em pesos pesados. Durante esse processo, fui campeão regional e nacional em várias categorias de peso.

Os títulos mais importantes, conquistei-os em 2017, já com 36 anos e na categoria de Super Pesado: fui campeão ibérico e da Europa, e ainda campeão do Mundo em três modalidades: K1 (conhecida como a disciplina rainha do Kickboxing), Low-Kick e Boxe Chinês.”

(continua)

Tita 1


(publicado a 27 de dezembro de 2024)

2|2 O GRANDE TITA - A minha avó

(continuação)

“Apanhei a tropa no último ano em que era obrigatória e vim de lá ainda mais possante. Não me regozijo do físico que desenvolvi, mas dos muitos amigos que lá ganhei e ficaram para a vida.

Continuo a combater. Há pouco fui a França e defrontei-me com uma torre de 2,12m, quando eu só tenho 1,80 de altura. Tenho de apostar menos na resistência e mais na estratégia. Há tantos campeões portugueses no Kickboxing, infelizmente desconhecidos no nosso país porque Portugal só valoriza o futebol.

Com muita pena minha, os meus pais nunca festejaram as minhas vitórias, ao contrário da minha avó, que as acompanhou de perto com grande felicidade. Mas pensei muito neles e no que eu teria gostado de os ver orgulhosos de mim.

Prefiro pensar em aproveitar a minha avó todos os dias, enquanto a tenho. Ela já sofre de demência e há muitos dias em que não me reconhece. Mas reconheço-a eu todos os dias e é também por mim que aqui venho.

A minha avó foi uma sofredora: perdeu a minha mãe e também um tio meu, mais recentemente. Ela vivia com ambos e foi ela que deu com os seus corpos sem vida. Não tenho mulher nem filhos. Tive uma namorada com quem vivi durante 12 anos em casa da minha avó. Começámos muito miúdos. Ela era tratada como uma neta mais. Mas a vida e os diferentes horários esvaziaram a relação. Eu trabalhava de noite como segurança. Quando chegava a casa, estava ela a sair para o trabalho. Por respeito à minha avó, nunca lhe apresentei mais ninguém porque nenhuma outra valeu a pena. Hoje, é ela a única pessoa de família que me resta.

Infelizmente, quando a fui visitar a casa há um mês e pouco - já com diagnóstico de demência - e a vi caída no chão, percebi que não poderia continuar a viver sozinha. Ainda bem que existe a Casa do Artista, um destino que ela sempre desejou e onde sei que está bem. Esta está a ser uma etapa nova para ambos. Quando me passa pela cabeça que o seu fim possa estar próximo, afasto logo o pensamento. Nunca se está preparado para perder quem se ama desta maneira.

A minha avó é a minha heroína, a quem devo os valores do respeito e da lealdade; e tudo o que sou hoje! Acho mesmo que já não há gente assim!"

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por Maria Helena da Bernarda

Maria Clementina 1

MARIA CLEMENTINA


(publicado a 3 de janeiro de 2024)

1|2 MARIA CLEMENTINA - A mãe
“Nasci em Setúbal há 87 anos, num contexto familiar adverso. Fui a terceira filha e a única sobrevivente. Os bebés que me antecederam faleceram cedo. Na altura nem se sabia de que morriam os bebés. Nunca os vi. Fiquei filha única. Os meus pais não se davam bem. Não se entendiam de maneira nenhuma e separaram-se quando eu tinha 10 anos.
Passaram um ano a discutir com quem é que eu ficava. A mim não me perguntaram com quem queria eu ficar, porque naquela altura não se dava qualquer importância à vontade das crianças. Acabaria por ficar com a minha mãe em Setúbal. Como o meu pai tinha família em Lisboa, ele foi viver com as irmãs. E era em casa delas que eu passava algum tempo das minhas férias, para ficar perto do meu pai.

Não me sentia feliz com o casamento conflituoso dos meus pais, mas também não posso dizer que passei a sentir-me feliz após a sua separação. Na verdade, nunca me senti feliz em fase nenhuma da minha vida, senão por breves momentos muito raros.

Nunca casei, porque a minha mãe era muito possessiva. Após a sua separação, eu era a sua única companhia, de quem ela não queria abdicar. Embora eu percebesse isso, a verdade é que acabei por me sentir responsável por ela, um dever moral que não me permitia abandoná-la.

Eu até tinha tendência para ser namoradeira, mas a minha mãe opunha-se sempre. Eu esbarrava invariavelmente com esse entrave, pois ela não queria partilhar-me com ninguém. Então, eu própria acabava os namoricos mal despontavam.

Quando atingi a maioridade, o meu pai conseguiu que eu me candidatasse a um emprego no Ministério das Corporações e Segurança Social, em Lisboa. Lá trabalhei a minha vida toda, durante muitos anos como chefe de secção.

As melhores recordações eram o tempo de libertação que eu passava diariamente sentada no autocarro entre Lisboa e Setúbal. Era um tempo só meu. Como eu gostava daquele escape.

Reconheço que tive sempre uma certa dificuldade em me relacionar com as pessoas, até mesmo com os colegas de trabalho. Tinha complexos. Lembro-me de se aproximar o Natal e eles contarem que a família se juntava - avós, tios, primos - e eu não tinha ninguém, a não ser a minha mãe!”

(continua)

Maria Clementina 2


(publicado a 4 de janeiro de 2024)

2|2 MARIA CLEMENTINA - Só dentro de mim

(continuação)
“Recordo que o meu pai alimentava o Natal sugerindo que eu escrevesse uma carta ao pai Natal, que resultava numa prenda no sapatinho. Com a sua partida, a minha mãe nunca o faria. Não mais houve Natal nem presente.

A minha mãe não era fácil e nunca foi feliz: com uma mãe austera, a perda de dois filhos e o divórcio, como poderia sê-lo? Se eu era vítima de circunstâncias, ela também.

Vivi com a minha mãe até ela falecer, com muita idade. Também o meu pai faleceu com 96 anos. Recordo que, já com sessentas, um dia me chamou para me pedir uma opinião: as irmãs estavam muito idosas e ele desejava casar com uma senhora sua conhecida, 10 anos mais nova, para o acompanhar na velhice. Claro que aprovei, ainda que a minha ligação com essa senhora nunca fosse equiparada à que tinha com os meus pais. Reconheço que nunca fui fácil nem simpática, por ser tão fechada. Nem eu gostava de mim própria. Sinto que afetivamente tive uma vida árida, vazia. As minhas alegrias eram as viagens entre a casa e o trabalho, e o Teatro, que surgiu na minha vida quando eu tinha 20 e poucos anos.

Um dia, um antigo colega de escola desafiou-me a criar um grupo de teatro em Setúbal. Ele já era interessado pelo teatro, mas eu não. Aí, a minha mãe não se opôs por uma razão: porque ela gostava do mundo do espetáculo - queria ter sido cantora - mas fora impedida pela minha avó. Só por isso não me contrariou. Além do teatro, eu integrava grupos de poesia, tendo escrito dois livros de poesia. Criámos então o grupo de teatro Ribalta. Além de funções de Direção, ensaiava todas as noites e representava aos fins de semana. Em palco, eu conseguia não ser eu, mas alguém muito melhor, com outras facetas: mais nova, mais velha, a rir ou a chorar. Outra!

Um dos papeis relevantes foi quando o La Féria me escolheu para fazer o papel da Maria Barroso, numa homenagem ao Mário Soares. A minha última atuação creio que foi no TAS - Teatro Animação de Setúbal - dirigido pelo Carlos César. Ele já faleceu, tal como os meus escassos amigos. Essa é a minha maior tristeza.

Feito o balanço da minha vida, defino-me como uma pessoa só. Sempre fui só, dentro de mim.”

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ÓSCAR CRUZ


(publicado a 28 de dezembro de 2023)

1|2 ÓSCAR CRUZ - Só o Cinema

“Fiz 85 anos em liberdade, até entrar na Casa do Artista em Abril passado. Sempre prezei a minha integridade, ainda que para tal tenha mudado de rumo várias vezes, consoante os ‘acidentes’ me aconteciam. Só o cinema me agarrou verdadeiramente: fui Assistente, Produtor, Maquinista, Intérprete, Argumentista, fiz Iluminação, Direcção de Produção…, quase tudo o que era possível fazer!

Nasci em 1938, um ano antes de eclodir a II Guerra Mundial. A infância não foi fácil pois havia falta de tudo no país, incluindo bens alimentares.

Após a 4ª classe fui trabalhar para uma oficina do meu tio e padrinho, com o fito de entrar na escola industrial e seguir para a Marinha, já que o meu pai era da Marinha de Guerra e o meu tio da Marinha Mercante.

Fiz o curso de Mestrança, tendo passado mais de 5 anos na pesca do bacalhau, a bordo do Navio-Hospital Gil Eannes, pelas costas frias do Canadá, Gronelândia e Noruega.

O Parque Mayer era-me familiar, pois era lá que ficava o barbeiro do meu pai, para onde ele me levava aos fins de semana. Um dia, tinha eu 23 anos e de férias em Portugal, fui ao barbeiro, onde conheci um director de produção cinematográfica. Estava a fazer um filme espanhol com a Marisol e o João Perry. À ultima hora, o João falhou e a pessoa que ele encontrou mais parecida era eu. Não perdeu tempo em convidar-me para o papel. Disse-lhe que não tinha escola de teatro, ao que me respondeu: ‘Não se preocupe! A gente resolve!’

Ao terceiro dia, o gerador que fornecia energia aos projectores pifou e a pessoa que tratava desses arranjos não estava. Fazendo uso do meu conhecimento adquirido na Marinha, meti as mãos na máquina e arranjei aquilo. Ao fim do dia, o dono da Cinemate, detentora das máquinas, convidou-me a trabalhar como grupista (*) durante a gravação daquele filme. E, por este acidente, ao Cinema ficaria ligado para sempre, cada vez com mais responsabilidades. Trabalhei com o António da Cunha Telles, designadamente n’O Cerco. Neste filme, onde deveria entrar o João Perry, mais uma vez ele não apareceu, desta vez por ter sido mobilizado para a Guiné. Acho que só então posso dizer que começou a minha carreira no cinema.”

(continua)

Oscar Cruz 2


(publicado a 29 de dezembro de 2023)

2|2 ÓSCAR CRUZ - Sorriso Fatal

(continuação)

“Atuei em 10 filmes, mas foi como produtor que me destaquei. Fiz, com o Francisco Manso, a série televisiva de oito episódios ‘A Epopeia dos Bacalhaus’. Esta série é hoje um importante documento inédito, de que me orgulho. O meu último trabalho mais importante foi ‘A Selva’, realizado pelo Leonel Vieira e filmado na Amazónia, já lá vão 20 anos.

Dediquei-me ao cinema português mas não enriqueci, porque ninguém enriquece nesta profissão. Vivo de uma baixa reforma, que é quase toda entregue à Casa do Artista. Mas não me queixo. Não perdi o que não tinha, ao contrário dos cineastas como o Cunha Telles, que tiveram de vender o seu património para aguentar o cinema português.

A minha vida amorosa, como a profissional, foi agitada. ‘Casei’ seis vezes, duas das quais oficialmente. Todas elas foram mulheres importantes na minha vida, em particular a mãe das minhas duas filhas. Tenho ainda um filho, nascido fora de uma relação estável.

Não sei dizer se sou mulherengo, mas verdadeiro fui. Sou um homem e, sabe como é…, acontece um sorriso, uma troca de olhares, as duas partes atraem-se…. Não me reconheço como o mau da fita. Vivi sempre relações com muita liberdade mútua. Nunca fui de apertar ninguém nem de me sentir apertado. Nunca menti, ainda que algumas vezes tivesse de pagar o preço. Mas convivo mal com a mentira. A minha última relação, de 14 anos, terminou após vivermos dois anos numa caravana no parque de campismo da Caparica. Em plena Covid, apanhei uma ciática e percebi que precisava de trazer mais conforto à minha vida. Ela, brasileira, regressou ao seu país e eu entrei aqui na Casa. Eu já não posso proporcionar uma vida de casal a uma mulher. Mantemos uma amizade, falamos ao telefone, mas não mais do que isso.

Não lamento nada do que fiz. Preferia não ter cometido alguns erros, mas com eles aprendi a olhar, escutar, analisar e a respeitar o próximo, especialmente o mais fraco. Para mim, as pessoas contam muito!

Vivi intensamente e saber isso não me entristece; pelo contrário, conforta-me. Tenho plena consciência de que vim para aqui, não para recuperar a saúde mas para preparar a morte. E estou bem com isso!”

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Helena Cordeiro - Nós nos Outros
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Carlos Paulo 1

CARLOS PAULO


(publicado a 5 de janeiro de 2024)

1|2 CARLOS PAULO - a minha vida
“Há seis meses sofri um AVC, no teatro A Comuna, em pleno palco. Eu fazia a última parte da peça sentado numa cadeira, falando com o público. Quando as luzes se apagaram, tentei levantar-me mas era como se a minha perna esquerda tivesse desaparecido. Não sentia dor, mas uma insensibilidade total. Ainda fui aos aplausos, amparado de ambos os lados, pensando que tinha tido uma cãibra.
Fiz reabilitação diária num centro perto de Mafra, onde estive internado, mas ali sentia-me deslocado, perdido. Consegui a admissão aqui na Casa do Artista e faço fisioterapia em Entrecampos. Estou o melhor que posso, mas longe de me sentir bem. É como se estivesse de fora de mim a assistir a isto, a este meu andar amparado num tripé, sem me reconhecer nele.

O AVC abalou-me também psicologicamente, porque me veio impedir de fazer uma das coisas de que mais gosto: caminhar! Para além disso, tirou-me a vontade para quase tudo, até a capacidade de ler. Sinto-me esvaziado. O meu esforço actual já não é só físico, é também não perder a intenção de ultrapassar isto, por causa do Teatro, que é a minha vida.

Faço Teatro desde os 16 anos. Quando não estou a atuar, caminho pelas ruas da cidade. Vivia sozinho, mas nunca fiz da casa um lar, apenas um abrigo onde eu pernoitava. Adorava deambular, observar pessoas e, quando se proporcionava, conversar com elas, inusitadamente. Eu sou de pessoas, não de coisas materiais. Tenho telemóvel só para atender chamadas e nem carro tenho. Duas palavras me definem: ator e caminhante. Adorava apanhar o metro no Rossio, sair na Alameda e descer a Almirante Reis a pé. É na rua que sinto o mundo, não dentro de casa.

Há quase 50 anos que tomo o pequeno almoço no Café Gelo, no Rossio, espaço de tertúlia de grandes intelectuais portugueses. Os empregados já nem me perguntam o que quero. Quando está um tempo agradável, venho fumar o meu cigarro fora.

Num desses dias amenos, vi uma senhora a gesticular. Olhou para mim e disse-me: ‘Eu não sou doida! Eu falo sozinha para não enlouquecer!’ Convidei-a para se sentar ao meu lado e estivemos duas horas e meia a conversar. Despedimo-nos num abraço, ela de lágrimas nos olhos.”

(continua)

Carlos Paulo 2


(publicado a 6 de janeiro de 2024)

2|2 CARLOS PAULO - Doze passas

(continuação)

“Eu vivo atento às pessoas e vejo que elas se cruzam num vaivém constante mas não se olham. Faz falta mais troca de olhares e ouvidos para escutar.

Gosto também de observar o comportamento humano porque isso enriquece a minha capacidade interpretativa. Eu tenho de conseguir colocar-me nos diferentes personagens com o maior realismo possível.

De todas as pessoas se aprende, porque são tão diversas quantas as que estão numa plateia a assistir. Costumo dizer aos jovens atores: quando uma sala está cheia, nós não sabemos a cor da pele, o sexo, a idade, a religião, a orientação sexual ou política. Ali, todas as pessoas são apenas seres humanos que respeitamos profundamente. Isso é que é bonito: o respeito pelo ser humano.

Nesse aspecto, o Teatro, como a cultura em geral, une as pessoas, não as divide. A única limitação é a dificuldade que os mais desfavorecidos têm de chegar a ela. Mas foi também por isso que eu e o João Mota fundámos A Comuna há 51 anos. Fizemos acordos com Juntas de Freguesia para facilitar o acesso a pessoas de baixa condição económica. O João foi o meu grande amor, com quem estive 18 anos. Fizemos vida conjunta, mas afastámo-nos porque já éramos mais irmãos que outra coisa. Foi de tal forma uma relação importante, que além de fundarmos A Comuna, ele adoptou como filho um sobrinho meu, na altura com 4 anos, com quem ainda vive.

Depois dele, já não voltei a fazer vida conjunta. Optei por ficar sozinho, mas não solitário. Tinha o Teatro, os transeuntes, os amigos - paixões que eu sublimo - um mundo para observar… e uma família maravilhosa.

Sou um de sete irmãos, todos próximos e ligados. O meu pai era ultraconservador mas a minha mãe compensava em tudo. Conheceram-se em África. Casaram tinha ela 17 anos, três meses depois de conhecer o meu pai, e viveram uma eterna paixão.

Ela foi exemplar na maneira como nos educou. Dizia sempre: ‘Eu tenho sete filhos, mas cada um é um.’ E tratava cada filho da maneira mais acertada, com respeito, sentimento que hoje une os irmãos.

Se o meu Natal ainda tem alegria, devo-o à família que tenho. Já as doze passas vão todas para o mesmo desejo: voltar a ser autónomo!”

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Inesquecível 500

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INESQUECÍVEL | Episódio #500

Em junho de 2024, o programa INESQUECÍVEL, emitido pela RTP memória e apresentado pelo “Sr. Televisão”, Júlio Isidro, comemorou, no Teatro Armando Cortez, o episódio número 500

 

Neste dia especial, contámos com a presença de inúmeros residentes da Casa do Artista, tais como, Anita Guerreiro, Lurdes Norberto, Helena Vieira e Simone de Oliveira. Não teve oportunidade de assistir? Clique no botão acima e assista hoje mesmo. 

 

Atente à galeria de fotos com alguns momentos registados pelo nosso voluntário Paulo Winz (Visitar Instagram Profissional de Paulo Winz)

PRODUÇÃO:

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Querido Mudei a Casa (do Artista)

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QUERIDO MUDEI A CASA (do Artista)

‘Querido Mudei a Casa’ renovou uma das divisões da Casa do Artista!

Obrigada, queridos! No âmbito das comemorações dos 20 anos do programa, juntamente à celebração dos 25 anos da APOIARTE – Casa do Artista, os “Queridos” vieram até à Casa do Artista para surpreender todos os residentes artistas e a Direção da instituição presidida por José Raposo. Reveja o episódio a partir de dia 4 de julho (13h00) no link acima. 

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Projeto “A Avó Veio Trabalhar” (2024)

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A AVÓ VEIO TRABALHAR (na Casa do Artista)

Iniciou-se o projeto de co-criação artística com residentes e a equipa d’A Avó Veio Trabalhar!

No projeto “A Avó Veio Trabalhar” entendem a idade como um poder que deve ser potenciado. Cada pessoa idosa tem um talento individual, aspirações e paixões em que acreditam e cultivam. Seja por meio dos workshops de lavores, ou por experiências culturais, os seus projetos mostram a singularidade do trabalho feito à mão e o amor e cuidado individual que cada Avó (ou Avô) coloca em cada produto.

 

A decorrer todas as quartas-feiras na Casa do Artista, até ao mês de setembro. 

a avo veio trabalhar

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Logotipo página Nós nos outros de Maria Helena da Bernarda

por Maria Helena da Bernarda

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Helena Cordeiro


(publicado a 23 de dezembro de 2023)

O TEMPO DOS OUTROS

“Faço voluntariado no Hospital de Santa Maria e na Casa do Artista, para onde venho todos os dias dos meus últimos 23 anos.

Casei há 55 anos, com 19 apenas, pouco antes de o meu marido embarcar para a Guiné. Assim que ele partiu, fui imediatamente tratar da minha viagem. Lá permaneci enquanto ele cumpria o serviço militar. Na Guiné, um país em guerra onde não havia nada, nasceu a filha mais velha. Mas nunca admiti regressar sem o meu marido.

Hoje essa filha tem 52 anos e o filho 46, ambos equilibrados e bons profissionais. Sinto-me plenamente satisfeita no meu papel de mãe, que levei sempre a peito. Fui funcionária administrativa, mas após os filhos saírem de casa, comecei a interessar-me pela área da Saúde. Em boa hora, pois quando os meus pais adoeceram, levei-os para minha casa e deixei o emprego. Eles precisavam mais de mim do que a empresa.

Não só tratei dos meus pais a tempo inteiro, como da minha sogra. Cuidei dos três durante alguns anos. A única ajuda que tinha era a de uma senhora que trabalhou em minha casa quase uma vida, até falecer. Eu levantava-me às 5h para tomar o meu banho, depois dava o banho à minha mãe, ao meu pai e à minha sogra, por esta ordem.

Foi há 26 anos, após o falecimento da minha mãe, que iniciei voluntariado no hospital. Três anos depois comecei aqui, tinha a Casa do Artista inaugurado dois anos antes. Comecei quando o senhor Armando Cortez faleceu.

Não faço voluntariado pelo reconhecimento, mas confesso que por vezes, sinto falta de um sorriso ou de um abraço de agradecimento. Ao hospital vou um dia por semana, mas aqui venho todos os dias, de manhã à noite. Não sei se são os residentes que não me largam, sempre a pedir atenções, se sou eu que não os largo. Vivo isto com muita entrega e grande vontade de saber. Não falho as formações com médicos, para poder prestar os cuidados mais adequados às pessoas especialmente debilitadas ou acamadas. O meu marido diz-me: ‘Tu já não sabes viver sem aquela casa!’ Se calhar, ele tem razão!

Só desejo continuar a ter saúde, porque tenho tanta gente todos os dias aqui à minha espera. Fiz do meu tempo um tempo dos outros, de tal forma que hoje, já não sei que tempo é o meu.”

Fotografia: Mª. Helena da Bernarda

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