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Helena Vieira – Nós nos Outros

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por Maria Helena da Bernarda

Helena Vieira 1

HELENA VIEIRA


(publicado a 21 de dezembro de 2023)

1|2 HELENA VIEIRA - Perdas

“Vim há 6 anos e uns meses para a Casa do Artista, quando, aos 74 anos, fiquei sem a minha mãe. Faleceu em 2017, com 93 anos.

Em 2002, divorciei-me, por mútuo acordo e com o beneplácito do nosso único filho. Nem ele já nos via como um casal. Na verdade foi o meu marido (*) que quis voar e eu não lhe cortei as asas. Respeitei a sua vontade e, talvez por isso, mantemos uma relação de boa amizade. Um casal não se deve manter com o sofrimento de uma das partes. O meu filho foi fantástico no apoio aos dois. Digo, por graça, que ele é a melhor ária de ópera que já cantei. (risos)

Foi o meu único casamento e não refiz a minha vida porque simplesmente não apareceu ninguém que me interessasse. Não me apetecia passar entrar numa nova relação que não fosse com alguém melhor.

Aproveitei para preencher a minha solidão de uma forma positiva: trouxe os meus pais, na altura ainda autónomos, para a minha casa de Lisboa. Um dos meus irmãos já falecera e o outro vive no Algarve. Não me importei nada de poder apoiá-los nessa fase da vida, pelo contrário. Fui uma privilegiada! Nessa altura eu ainda cantava no São Carlos. Lá vivi uma década de ouro, com o Dr. Serra Formigal e o Dr. João de Freitas Branco. Mas os problemas de gestão surgiram e o Teatro fechou portas, para grande desgosto meu. Pouco tempo depois faleceu o meu pai. Senti uma dor profunda, porque o adorava de paixão. Se eu tivesse encontrado um homem como ele, aí sim! Não são só os meus olhos que o endeusam. A minha mãe também o adorava, e perdia-se com o seu bom humor contagiante.

Com o divórcio, o fecho do São Carlos e a morte do meu pai, fui-me abaixo. Deprimi, ao ponto de precisar de apoio médico para dar forças à minha mãe - também ela deprimida com a morte do seu querido Zé - e suportar a artrite reumatóide de que eu já sofria. Mas alguém tem de aguentar e teria de ser eu. A minha mãe foi ficando muito magrinha. Eu alimentava-a, fazia a sua higiene, deslocava-a na cadeira de rodas, mas ela mantinha a cabeça sã e era com que eu conversava.

Naquela manhã entrei no seu quarto, chamei: ‘Mãe..., mãe!’ Partiu durante o sono.”
(continua)

(*) O pintor e astrólogo Paulo Cardoso

Helena Vieira 2


(publicado a 22 de dezembro de 2023)

2|2 HELENA VIEIRA - O canto
(continuação)

“Com o falecimento da minha mãe, durante dois dias fiquei vazia e inerte, sentada no sofá, sentindo-me sozinha no mundo. Só saía para passear a Patinhas, a cadela que herdei do meu irmão. Quando me apercebi da vastidão do meu vazio, liguei para a Casa do Artista. Quando aqui cheguei, só queria estar deitada. Com o tempo aprendi a aceitar a morte, muito ajudada por um estudo de uma igreja japonesa. Mas a saudade é inevitável.

Infelizmente, o meu filho vive no Porto e não o vejo - a ele e ao meu querido neto de 13 anos - tanto quanto gostaria. Dói-me a distância. Falamos com frequência, dizemos que temos saudades mútuas, mas não é o mesmo que estar fisicamente.

Felizmente… tenho umas amigas do tempo da minha mãe que me visitam e levam a passear. Adoro passar a tarde com elas.

Tenho 70 anos, sou diabética desde criança mas cuido-me. Quero viver enquanto a cabeça funcionar, eu puder cuidar de mim e fizer boa companhia aos outros. Mesmo com as minhas mazelas - caminho com dificuldade - ainda consigo divertir-me e divertir os outros com o fino sentido de humor que herdei do meu pai. Dediquei a vida profissional ao canto, uma paixão que me deixou grandes memórias. Comecei a cantar muito cedo, tendo cursado o Conservatório. Cantar profissionalmente para os outros, tocar a sensibilidade das pessoas dando o que de melhor tenho e sentir que elas gostam de nós, faz um bem imenso à alma. Já não posso cantar, mas posso sonhar. Trago dois desejos comigo: para este ano, será rever o meu filho e neto; para os próximos, cumprir o grande sonho de viajar ao Brasil para ouvir ao vivo o cantor, actor e instrumentista Almir Sater. Toca brilhantemente viola caipira, de 10 cordas, descendente da viola braguesa. Adorava conhecê-lo, oferecer-lhe uma viola braguesa - que imagino não tenha - e, sei lá, perguntar-lhe coisas!” (risos)

TOCANDO EM FRENTE
Almir Sater

Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque eu já chorei demais

Hoje me sinto mais forte
Mais feliz, quem sabe
Eu só levo a certeza
De que muito pouco eu sei
Ou nada sei

(…)

É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir

Ivan Coletti – Nós nos Outros

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por Maria Helena da Bernarda

Ivan Coletti 1 Helena da Bernarda

IVAN COLETTI


(publicado a 17 de dezembro de 2023)

1|3 ONDE ME SINTO - Regresso da Maresia Foguete
“Nem eu nem o Pedro adoramos viagens de cruzeiro, mas pela sua mãe, para lhe trazer de volta a maresia e avivar as boas memórias, fomos os três e correu muito bem. A cadeira de rodas em que se move aos seus 90 anos não a impediu de quase nada. Veio recarregada de vida e maresia.

Para nós foi também um merecido descanso depois de um ano de árduo trabalho. Temos ambos 66 anos, mas trabalhamos como se tivéssemos 20. Sou produtor de teatro e televisão. Além da produção e montagem - organizo o necessário para a posta em cena - faço a maquilhagem e caracterização dos atores. Essa vertente, que mantenho, foi a constante ao longo da minha vida profissional e a que me abriu outras portas.

Só este ano produzi a ‘Pentesileia’ no Teatro do Bairro - ainda fazia o Castelo de São Jorge - 'Os Gigantes da Montanha’ de Pirandello nas Ruínas do Carmo e ‘A Tempestade’ de Shakespear no São Luiz… Também eu estava a precisar daquele nosso retiro no mar.

A mãe do Pedro é a figura cimeira de uma família conservadora, com um estatuto sociocultural que a minha nunca teve, e em que fui entrando de forma ‘sorrateira’ e natural, tal como ela em mim. Eu e o Pedro temos uma relação inequivocamente linda, há 38 anos. Creio que foi a evidência dessa beleza que ganhou o respeito de todos. Ainda conheci a avó do Pedro - a avó Lena - a primeira que identificou, com carinho, a natureza especial da nossa relação. A minha sogra é para mim uma segunda mãe. Sentimos cumplicidade. Ela merece receber toda a doçura que eu lhe possa dar. Adoro também os meus cunhados e sobrinhos e sou um orgulhoso padrinho da sobrinha mais velha.

O universo foi generoso comigo… Nasci no Brasil, numa família simples. Os meus pais saíam de casa para o trabalho às 6h da manhã, a minha irmã ia para a escola e eu, com 6 anos, varria, fazia as camas e cozinhava o arroz para o almoço, em cima de uma cadeira. Quando queria ouvir música ia para casa de um tio, que tinha um gira-discos fascinante, como um tesouro. A música que mais me comovia era o fado, cantado pela Amália. Chorava copiosamente. Quando vim a conhecê-la pessoalmente, era como se já a conhecesse de toda a vida.”
(continua)

Ivan Coletti 2 Helena da Bernarda


(publicado a 18 de dezembro de 2023)

2|3 ONDE ME SINTO - A primeiríssima
(continuação)

“Sempre estudei, ainda que aos 12 anos tivesse de ir trabalhar para continuar os estudos à noite. Empreguei-me numa loja como ‘pacoteiro’: fazia embrulhos. Na hora de fazer formação superior, escolhi Artes Dramáticas, porque me fascinava a beleza associada ao espectáculo: do teatro à música, da televisão ao circo. Quando acabei o curso, percebi que tinha '25 pernas esquerdas' como actor. Por outras palavras, era um canastrão! (risos) Mas continuava fascinado pela luzes, tecidos, cores… e pela imagem dos atores.

Um dia, por falta de um maquilhador, ofereci-me para maquilhar uma vedeta que produzia os concursos Miss Brasil. Correu de tal forma bem, que em pouco tempo estava a fazer cursos de maquilhagem e caracterização de atores e a trabalhar para para novelas de televisão.

Nesse meio, conheci um casal alemão que tinha uma clínica de estética orientada para o mundo do espetáculo e me convidou a ir para Munique. A viagem previa uma paragem em Madrid, cidade que não me encantou mas teve, pelo menos, o mérito de atiçar a minha vontade de conhecer Lisboa. Apanhei o comboio em Atocha e entrei em Lisboa ao amanhecer. Já num taxi a caminho do hotel, com a rádio ligada num programa do António Sala e Olga Cardoso, vi o Tejo ao som de ‘Lisboa, não sejas francesa’, na voz da Amália. As lágrimas escorriam-me pela cara abaixo. Não conseguia parar de chorar mas, sem saber, pararia em Lisboa para o resto da minha vida. Adiei Munique, até sempre.

Aqui contactei a RTP, que assegurou os primeiros dias com trabalhos de maquilhagem ocasionais. No meu jantar de despedida, aproximou-se uma senhora da minha mesa, perguntando: ‘O rapaz está triste, ou é triste?’ Depois, abeirou-se de um piano e, olhando na minha direção, começou a cantar: ‘Eu sei que eu tenho um jeito, meio estúpido de ser…’. Era a Simone de Oliveira, senhora com quem construí uma forte relação de amizade, que perdura. Criei outras amizades, mas ela é a primeiríssima!

A despedida não se deu porque, trabalho atrás de trabalho, mesmo em recibos verdes, havia sempre uma razão para ficar.

Um dia, recebi uma mensagem do Nicolau pedindo para falar comigo.”
(continua)

Ivan Coletti 3 Helena da Bernarda


(publicado a 19 de dezembro de 2023)

3|3 ONDE ME SINTO - Amor
(continuação)
“O Nicolau queria montar uma produtora e precisava de mim. Eu não o conhecia. Combinámos encontro no Parque Meyer. Quando lá cheguei, perguntei a um senhor quem era o Nicolau Breyner. Respondeu-me: ‘Vem falar com esse senhor? Ele é má pessoa. Péssimo mesmo!’ Pintou-me o pior cenário. Apreensivo, ainda esperei 20 minutos, observando o Varela a ensaiar. Quando decidi desistir, o mesmo senhor a quem me dirigira perguntou-me onde ia eu.

Respondi que ia embora, deduzindo que o Sr. Nicolau já não quereria falar comigo, ao que ele respondeu, com um sorriso maroto: ‘Eu sou o Nicolau Breyner!” De terrível não tinha nada. Adorei aquele homem, para quem trabalhei muitos anos.

Foi na produtora dele que encontrei o amor da minha vida. Um dia, o Pedro convidou-me para jantar e… passámos a jantar sempre juntos até hoje. Ele fez-me sentir que nasci duas vezes: a segunda em Lisboa. Hoje sou muito mais português que brasileiro.

Trabalhámos durante 20 anos frente a frente mas, inteligentemente, nunca levámos o trabalho para casa. Casámos 25 anos depois de estarmos juntos, com a maior discrição. Só nós dois. Quando informámos os seus pais, recordo a reação do pai, um senhor que eu adorava. Era calmo e silencioso, o que impõe sempre um especial respeito. Cruzou os braços e perguntou: ‘Vai haver festa?’ Perante a nossa negação, abriu os braços e respondeu: ‘Isso é que está mal!’ (risos) Acho que o Pedro quis, com o casamento, salvaguardar a minha situação no caso de partir antes de mim. Nem quero pensar nessa hipótese, mas ele pensou.

Tenho a consciência da diferença que existe entre o património de um e outro. Mas, para mim, é claro que todas as peças que ele tenha de família, para a sua família voltarão. Não penso na morte, vivo o dia presente. O universo deu-me tudo, mas o mais importante foi o Pedro e a relação pura que vivemos. Ao lado dele, nunca senti o custo da fidelidade; ela surge naturalmente. Nunca penso no que não tive ou ficou por fazer, da mesma maneira que não faço grandes planos para o futuro. Caminhamos juntos em total sintonia, sempre de acordo um com o outro, sempre sem desejo de estar noutro lugar. Estou onde me sinto!”

Luísa Afonso – Nós nos Outros

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por Maria Helena da Bernarda

Luisa Afonso 1

Luísa Afonso


(publicado a 19 de setembro de 2023)

1|3 COMO PEDRA NA PAISAGEM - A mudança
“Tenho 78 anos de uma vida com alguns desgostos profundos, mas todos os dias acordo feliz, só por estar acordada. Sei que um dia não vou acordar. E só por poder ver a luz de um novo dia, tenho de agradecer a Deus. Mas também acredito que haverá outra vida, certamente melhor que esta.

Talvez seja a minha origem transmontana que me dá a resistência. Trás-os-Montes é rica em lendas. Diz-se que lá, as mulheres são homens e os homens são lobisomens. É uma outra forma de dizer que as pessoas são autênticas, terra-a-terra, rijas como a pedra que prevalece naquela paisagem. A perda repentina dos meus pais, em momentos diferentes, foi um choque. Embora eu já não vivesse com eles, a ligação era profunda. Possibilitaram-me uma infância e adolescência maravilhosas. Fui feliz como nunca mais viria a ser.

Eu adorava subir às árvores com os meus irmãos, que eram muitos. Não nos faltava comida. Brinquedos também não, porque a Natureza era toda ela um brinquedo, e era toda minha. Quando acabei a 4ª classe, não podia continuar a estudar. Comecei a ocupar-me com as tarefas domésticas, a agricultura e o gado. Mas o que eu mais adorava eram os arraiais, que me permitiam dançar na rua com as minhas irmãs. Eu devia destacar-me, porque as pessoas estancavam à minha voltar só para me ver dançar.

Um dia, a minha irmã mais velha, que fazia serviço doméstico como interna em Lisboa, convidou-me a vir com ela. Teria eu 17 anos. Custou-me deixar os meus pais, quase tanto como convencê-los a deixar-me vir. Lembro-me de ver a minha mãe chorar - era muito agarrada aos filhos - e de eu fazer um esforço para me manter dura. Não podia quebrar. Se eu chorasse, o meu pai ter-me-ia impedido de vir.

Fiquei com a minha irmã na casa onde ela trabalhava. Um dia, ela levou-me a ver uma revista com a Florbela Queiroz. Fiquei tão encantada que pensei: ‘É isto que eu quero fazer!’

Dito e feito! Quando cheguei a casa com a minha irmã, inventei uma desculpa para sair, regressar ao teatro e dizer: ‘Quero vir para o Teatro!’ Só assim!

No dia seguinte ia começar um revista nova e disseram-me que me apresentasse às 4h da tarde para prestar provas como bailarina.”
(continua)

Luisa Afonso 3


(publicado a 20 de setembro de 2023)

2|3 COMO PEDRA NA PAISAGEM - Tudo menos isso
(continua)

“Sem formação, comecei a vida como bailarina no teatro de revista. Estreei-me com 17 anos. O meu primeiro ensaiador perguntou-me se alguma vez eu tinha aprendido dança ou ginástica. Respondi-lhe que a minha única ginástica era subir às árvores, na minha terra.

Ele ensinou-me tudo. Precisei de arranjar mil desculpas em casa para não faltar aos ensaios. Rapidamente aprendi a dançar em pontas. Quando me consideraram-me apta, quiseram fazer-me um contrato e pediram-me o Bilhete de Identidade. Aí é que foi o problema. Em vez de ficar eufórica, fiquei preocupada por ser menor. Só tinha 17 anos. Precisavam da permissão do meu pai. Mas se ele estava em Trás-os-Montes?!

Lá ultrapassaram o entrave, fazendo-me um contrato no qual fui tutelada pelo Ministério do Interior. O Ministério é que foi legalizar uma ilegalidade. (risos) Liguei-me de tal forma ao teatro que fiz quase tudo o que havia para fazer além da dança, desde interpretação ao fabrico de adereços. Fiz muitos chapéus. Mesmo no mundo do espectáculo, sempre gostei de me levantar e deitar cedo. De certa forma, isso protegeu-me de muitos riscos. Só não me protegeu do meu primeiro e único amor…

Foi no Teatro que o conheci. A nossa ligação foi imediata e profunda. Vivemos juntos 4 anos, relação que me deu a minha única filha, tinha eu 20 anos. Quando a menina tinha 2 anos e meio, ele ficou fora de casa uns dias… pensava eu. Quando ouvi a mulher do chefe dele dizer ‘Olhe, o Pinho casou ontem e está em lua-de-mel’, fiquei de pedra. O choque foi de tal maneira que decidi nunca mais querer homem nenhum. Passaria a ser a mulher mais independente do mundo, preparada para criar a minha filha sozinha. Ele enganou-me tão bem, que nunca poderia voltar a confiar num homem.

Nunca mais o vi. Só sei que após ter casado, emigrou para a Alemanha. Partiu sem dar o nome à filha. Tive de ir a Tribunal, para que ela tivesse o seu apelido. Consegui-o, sem que ele exigisse teste de paternidade, pois conhecia-me bem. Nunca exerceu de pai nem deu a mínima contribuição para o sustento da menina. Eu também não lhe pedi nada, não fosse ele tirar-me a filha. Tudo menos isso!”
(continua)

Luisa Afonso 2


(publicado a 21 de setembro de 2023)

3|3 COMO PEDRA NA PAISAGEM - Desgosto maior
(continuação)

“Não consegui dar um pai à minha filha, mas nunca lhe faltei com nada. Isso não impediu que nela se instalasse uma amargura.

Um dia ela quis falar ao pai, teria 9 anos. Queria explicações que eu não lhe podia dar. Ajudei-a a enviar uma carta, endereçada através de uma assistente social, para evitar o contacto. A mesma senhora escreveu de volta, dizendo que o pai pedia que a filha não o contactasse pois a mulher era ciumenta e far-lhe-ia a vida num inferno. Custou-me tanto dizer à minha filha que o melhor era ela esquecer e que não valia a pena estragar a vida ao pai. ‘Vamos dar-lhe esse direito’, disse-lhe. E a minha filha respeitou a sua vontade, certamente com muita dor. O tempo passou mas, infelizmente, eu e a minha filha não mantemos uma relação de proximidade. Eu resigno-me, tentando aceitar os seus traumas. Também aceito a angústia que possa ter sentido quando eu ia para o Teatro e ela ficava sozinha, por falta de apoio familiar. Aceito não ter sido o tipo de mãe com uma vida estável, que todos os filhos gostam. Vivo em esforço para compreender o seu afastamento, há muitos anos já…

Pouco anos depois de a minha filha casar e ser mãe, sentindo que o meu próprio papel de mãe estava cumprido, emigrei para os Estados Unidos, disposta a fazer qualquer trabalho sério. Precisava de ganhar a vida. Aos fins-de-semana fazia teatro, mas isso não dava para me manter. Então, nos dias úteis trabalhava a dias.

Durante a minha estadia na América falávamo-nos, trocávamos cartas e telefonemas. Todos os anos vinha visitá-la à Amadora.

Um dia, fui visitá-la e já lá não vivia. Sem qualquer zanga entre nós, apagou todos os rastos. Fiz várias tentativas de a procurar, mas desconheço a nova morada e não há ninguém que me dê o mínimo sinal da sua vida. Hoje ela tem 58 anos e seis filhos, netos que não vejo.

Vivo na Casa do Artista desde os 64 anos, entre a resignação e a esperança. Mantenho uma fé inabalável em Deus, mas o meu coração fechou-se, salvo para apoiar todos os residentes que mais precisam de ajuda.

A Deus, só Lhe posso dar contas daquilo que eu faço e só Lhe peço uma coisa: que nunca abandone a minha filha.”

Luisa Afonso 4 Helena da Bernarda


(publicado a 22 de setembro de 2023)

O REENCONTRO
CLIQUE NA IMAGEM PARA VER VÍDEO DO REENCONTRO!!

“Quando cheguei àquela casa, nunca pensei que abrissem a porta a duas desconhecidas. Fomos recebidas por uma jovem - mãe de um bisneto meu cuja existência desconhecia - e pela sua mãe. Assim que eu disse de quem era avó, os braços abriram-se-me com imensa generosidade.

Disseram-me que a minha filha estava viva e bem - tudo o que eu queria ouvir - e que ela lhes falava de mim. Senti que me tiraram 20 anos de angústia. Fizeram-me sentir que ali eu estava em família. Parecia que todas estávamos à espera daquele momento. Maior pressão senti quando me disseram que a minha filha e neto estavam a chegar para entregar o meu bisneto. Quando a campainha tocou e ouvi os passos na escada, aí realmente senti o coração a bater forte. Nem sei descrever o que senti após uma espera de duas décadas: era urgência, ansiedade, receio…

Eu desejava conhecer toda a família mas a minha filha… é o amor da minha vida. Quando ela me viu, abriu imediatamente os braços e fundimo-nos num abraço demorado. Só me lembro de que ela me disse: ‘Eu amo-te muito, mãe’. Respondi: ‘Também te amo muito, filha!’ Já não recordo mais nada. E mais nada era preciso dizer, naquele momento. E, se calhar, é só isso que mãe e filha crescidas precisam dizer. Desejo desenvolver uma proximidade com todos, mas a ligação à minha filha é única. É que os netos não os vi crescer; ela sim!

Acabou-se a angústia de saber o que lhe possa ter acontecido. Parti com um alívio inexplicável e a mesma certeza: o meu amor pela minha filha é incondicional. Decidimos as duas que a história da nossa vida era a que quiséssemos contar daqui para a frente. O nosso livro só tem páginas brancas. Acho que esta noite não vou conseguir dormir. Mas desta vez é de felicidade!”

NR: As fotografias foram feitas com telemóvel, após as lágrimas terem sido limpas. A máquina ficara no carro, porque o objectivo não era fotografar o momento. Por um lado não se esperava que este reencontro acontecesse já hoje. Por outro, não havia intenção de fotografar. Mas foi tudo tão espontâneo - os olhares, os beijinhos - que não resisti.

Atividades com os Residentes

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bloco site residentes com ricardo madeira

...em constante atualização...

Ida à Praia!

É Verão!

 

E com ele chega também outros tipos de animação. 

A oportunidade de estar em contacto com a areia, sentir a brisa do mar, olhar para o horizonte e ouvir as ondas do mar a rebentar, são momentos tão únicos e prazerosos que nos fazem viajar no tempo, que nos transportam para outras dimensões. Este dia foi marcante para alguns dos nossos residentes acompanhados pelo animador sociocultural Ricardo Madeira, pela nossa voluntária Helena Cordeiro e, ainda pelo nosso motorista João. 

Clube de Histórias com a atriz Margarida Adrião

Durante o decorrer dos ensaios para um musical que aconteceram nas Galerias Raul Solnado da Casa do Artista, a jovem atriz Margarida Adrião teve uma excelente ideia: a ideia de fazer perpetuar as memórias dos residentes da Residência Sénior da Casa do Artista.

 

E assim foi, depois de estrear o projeto para o qual estava a ensaiar, depois de estruturar e planificar a sua ideia, criou um clube de Histórias dentro da Residência, onde juntamente com os nossos residentes, fazem viagens no tempo e partilham as suas maiores alegrias, maiores tristezas, como, também, as suas maiores conquistas!

Terapia Assistida por Animais

KIKI E NALA TÊM ANIMADO A CASA DO ARTISTA

 

Depois do projeto piloto da Terapia Assistida por Animais, que decorreu ao de 10 meses, continuam, quinzenalmente, a ser levadas a cabo intervenções junto de um grupo de residentes da Casa do Artista.

“Com uma intervenção inicialmente prevista para um grupo de 10, o sucesso da iniciativa tem ditado o progressivo aumento do número de participantes. Em cada sessão são analisadas que dimensões ou domínios podem ser desenvolvidos como consequência direta desta medida terapêutica, nomeadamente as suas capacidades cognitivas, funcionais, sociais e de mobilidade”.

Visita ao Museu Nacional do Teatro e da Dança

Depois de ter percorrido 10 concelhos do país desde março de 2023, a exposição Quem és tu? – Um teatro nacional a olhar para o país chega ao Museu Nacional do Teatro e da Dança, em Lisboa, e estará patente até 29 de dezembro, para revelar objetos nunca antes expostos, que sublinham a relação entre o Teatro Nacional D. Maria II e o país.

A exposição Quem és tu? – Um teatro nacional a olhar para o país, com curadoria de Tiago Bartolomeu Costa, chega a Lisboa, depois de mais de um ano de viagem pelo país, no âmbito do projeto Odisseia Nacional, do Teatro Nacional D. Maria II. 

No dia 20/7 o curador da exposição organizou uma conversa com Filipe La Féria no âmbito da exposição e a Dra. Ana Ascensão convidou a Direção, Residentes e funcionários a estar presente nessa ocasião.

OBRIGADO PELO CONVITE

Tarde Dançante na Residência da Casa do Artista

Concerto Gerardo Rodrigues na Sala Beatriz Costa e no Teatro Armando Cortez

O talentosíssimo Gerardo Rodrigues, músico e amigo da APOIARTE – Casa do Artista, mais uma vez brindou-nos com dois concertos num só dia: o primeiro, privado para os residentes da Casa do Artista, e o segundo, aberto ao público no Teatro Armando Cortez. Fique a conhecer um pouco mais ao clicar no botão a baixo.

Comemoração do dia Mundial da Poesia

Foi no dia 21 de março que os nossos residentes passaram um dia diferente na Residência da APOIARTE – Casa do Artista para comemorar o Dia Mundial da Poesia. Com as leituras irrepreensíveis do nosso estimado residente Carlos Paulo, de Hugo Franco, de Luciana Ribeiro e de Rogério Vale) os residentes da Casa do Artista experienciaram uma tarde magnifica na nossa Sala Beatriz Costa. 

 

A atriz Manuela Maria quis celebrar este dia ao dizer-nos o poema “Ator” que mais tarde voltou a dizê-lo no Dia Mundial do Teatro. Assista ao Vídeo no botão em baixo!

Visita ao Museu de Lisboa

O animador sociocultural da APOIARTE – Casa do Artista, Ricardo Madeira, organizou uma visita ao Museu de Lisboa.

Os Residentes da Casa do Artista tiveram a oportunidade de visitar o Museu de Lisboa onde está a Exposição “Lisboa Frágil” com fotografias de Luís Pavão. 

Aqui queremos deixar o nosso profundo agradecimento ao Museu de Lisboa por proporcionar momentos de partilha, de conhecimento, de cultura e de convívio aos nossos estimados residentes. 

Confira nas imagens abaixo os melhores momentos desta tarde muito bem passada! 

 

Agradecimentos: Museu de Lisboa & Ricardo Madeira

Dia Internacional da Mulher

Foi no dia 8 de março que os nossos residentes passaram um dia diferente na Residência da APOIARTE – Casa do Artista. Pela manhã contámos com a presença do Presidente da Junta de Freguesia de Carnide, Fábio Martins de Sousa, e o seu executivo, que gentilmente entregou flores às nossas Residentes e Colaboradoras. 

No período da tarde, aconteceu um convívio agradável com convidados onde se honrou e dignificou as mulheres, num dia dedicado a elas.

 

𝐎𝐁𝐑𝐈𝐆𝐀𝐃𝐀 a todos os convidados:
Maria João Gama 
Pra. Dra. Maria José Nuncio 
ARPICantares /ARPIC
Cristiana Águas 
(Acompanhada por “Guitarras do Crácio” composto por Eduardo Birin e Nelson Aleixo)
Jaqueline Carvalho 
(acompanhada pelo Mestre Luís Ribeiro e Ginestal)

𝐎𝐁𝐑𝐈𝐆𝐀𝐃𝐀 pelo apoio extraordinário:
Pedro Miranda
Ana Velho do Vale
Lions Club de Lisboa – Club Mater de Portugal (Presidido por Ana Velho do Vale)
Dra. Joana Figueiredo
Ricardo Madeira

Tarde Animada com Grupo de Concertinas da Casa do Concelho de Castro Daire

Dos muitos convidados que se fazem chegar às nossas instituições de forma totalmente generosa e solidária, contámos com uma tarde bastante animada com o Grupo de Concertinas da Casa do Concelho de Castro Daire.

Deixamos um especial agradecimento à sua Direção nas pessoas de Luís Esteves e e Diva Pinto e, também, a Adelaide Ferreira, responsável pelo grupo.

 

Muito Obrigada <3

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