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Projeto “A Avó Veio Trabalhar” (2024)

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A AVÓ VEIO TRABALHAR (na Casa do Artista)

Iniciou-se o projeto de co-criação artística com residentes e a equipa d’A Avó Veio Trabalhar!

No projeto “A Avó Veio Trabalhar” entendem a idade como um poder que deve ser potenciado. Cada pessoa idosa tem um talento individual, aspirações e paixões em que acreditam e cultivam. Seja por meio dos workshops de lavores, ou por experiências culturais, os seus projetos mostram a singularidade do trabalho feito à mão e o amor e cuidado individual que cada Avó (ou Avô) coloca em cada produto.

 

A decorrer todas as quartas-feiras na Casa do Artista, até ao mês de setembro. 

a avo veio trabalhar

OUTROS DESTAQUES

Arraial 2024 | Casa do Artista

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arraial

ARRAIAL CASA DO ARTISTA 2024

No passado dia 29 de junho, sábado, a APOIARTE – Casa do Artista realizou um Arraial Solidário para todos aqueles que pretendiam terminar o mês dos festejos dos Santos Populares junto da comunidade envolvente da nossa instituição. Este evento contou com a presença dos nossos residentes, artistas convidados, comida, música e muita alegria. 

NESTE ARRAIAL FOI HOMENAGEADA A NOSSA ESTIMADA RESIDENTE MARIA VALEJO!

O nosso maior agradecimento aos fadistas Paulo Jorge Ferreira e Jaqueline Carvalho, excelentemente acompanhados por Bruno Sangareau na Guitarra Portuguesa e Joaquim Ferreira na Viola.

Obrigado à Junta de Freguesia de Olivais por nos ter brindado com um momento único da Marcha Infantil de Olivais. 

Obrigado aos Broadway Kids por se juntarem a nós nesta festa e alegrarem todos os presentes. 

 

OBRIGADA À SUPERBOCK por, mais uma vez, estar de mãos dadas com a nossa causa!

 

Fique a par de alguns momentos através da consulta da nossa galeria de fotos em baixo.

Para o ano há mais!

 

Contamos consigo!

 

 

Fotografias de Rafael Sá Carneiro e Rafaela Elias (estão reservados os direitos de autor)

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Helena Cordeiro – Nós nos Outros

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por Maria Helena da Bernarda

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Helena Cordeiro


(publicado a 23 de dezembro de 2023)

O TEMPO DOS OUTROS

“Faço voluntariado no Hospital de Santa Maria e na Casa do Artista, para onde venho todos os dias dos meus últimos 23 anos.

Casei há 55 anos, com 19 apenas, pouco antes de o meu marido embarcar para a Guiné. Assim que ele partiu, fui imediatamente tratar da minha viagem. Lá permaneci enquanto ele cumpria o serviço militar. Na Guiné, um país em guerra onde não havia nada, nasceu a filha mais velha. Mas nunca admiti regressar sem o meu marido.

Hoje essa filha tem 52 anos e o filho 46, ambos equilibrados e bons profissionais. Sinto-me plenamente satisfeita no meu papel de mãe, que levei sempre a peito. Fui funcionária administrativa, mas após os filhos saírem de casa, comecei a interessar-me pela área da Saúde. Em boa hora, pois quando os meus pais adoeceram, levei-os para minha casa e deixei o emprego. Eles precisavam mais de mim do que a empresa.

Não só tratei dos meus pais a tempo inteiro, como da minha sogra. Cuidei dos três durante alguns anos. A única ajuda que tinha era a de uma senhora que trabalhou em minha casa quase uma vida, até falecer. Eu levantava-me às 5h para tomar o meu banho, depois dava o banho à minha mãe, ao meu pai e à minha sogra, por esta ordem.

Foi há 26 anos, após o falecimento da minha mãe, que iniciei voluntariado no hospital. Três anos depois comecei aqui, tinha a Casa do Artista inaugurado dois anos antes. Comecei quando o senhor Armando Cortez faleceu.

Não faço voluntariado pelo reconhecimento, mas confesso que por vezes, sinto falta de um sorriso ou de um abraço de agradecimento. Ao hospital vou um dia por semana, mas aqui venho todos os dias, de manhã à noite. Não sei se são os residentes que não me largam, sempre a pedir atenções, se sou eu que não os largo. Vivo isto com muita entrega e grande vontade de saber. Não falho as formações com médicos, para poder prestar os cuidados mais adequados às pessoas especialmente debilitadas ou acamadas. O meu marido diz-me: ‘Tu já não sabes viver sem aquela casa!’ Se calhar, ele tem razão!

Só desejo continuar a ter saúde, porque tenho tanta gente todos os dias aqui à minha espera. Fiz do meu tempo um tempo dos outros, de tal forma que hoje, já não sei que tempo é o meu.”

Fotografia: Mª. Helena da Bernarda

Helena Vieira – Nós nos Outros

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por Maria Helena da Bernarda

Helena Vieira 1

HELENA VIEIRA


(publicado a 21 de dezembro de 2023)

1|2 HELENA VIEIRA - Perdas

“Vim há 6 anos e uns meses para a Casa do Artista, quando, aos 74 anos, fiquei sem a minha mãe. Faleceu em 2017, com 93 anos.

Em 2002, divorciei-me, por mútuo acordo e com o beneplácito do nosso único filho. Nem ele já nos via como um casal. Na verdade foi o meu marido (*) que quis voar e eu não lhe cortei as asas. Respeitei a sua vontade e, talvez por isso, mantemos uma relação de boa amizade. Um casal não se deve manter com o sofrimento de uma das partes. O meu filho foi fantástico no apoio aos dois. Digo, por graça, que ele é a melhor ária de ópera que já cantei. (risos)

Foi o meu único casamento e não refiz a minha vida porque simplesmente não apareceu ninguém que me interessasse. Não me apetecia passar entrar numa nova relação que não fosse com alguém melhor.

Aproveitei para preencher a minha solidão de uma forma positiva: trouxe os meus pais, na altura ainda autónomos, para a minha casa de Lisboa. Um dos meus irmãos já falecera e o outro vive no Algarve. Não me importei nada de poder apoiá-los nessa fase da vida, pelo contrário. Fui uma privilegiada! Nessa altura eu ainda cantava no São Carlos. Lá vivi uma década de ouro, com o Dr. Serra Formigal e o Dr. João de Freitas Branco. Mas os problemas de gestão surgiram e o Teatro fechou portas, para grande desgosto meu. Pouco tempo depois faleceu o meu pai. Senti uma dor profunda, porque o adorava de paixão. Se eu tivesse encontrado um homem como ele, aí sim! Não são só os meus olhos que o endeusam. A minha mãe também o adorava, e perdia-se com o seu bom humor contagiante.

Com o divórcio, o fecho do São Carlos e a morte do meu pai, fui-me abaixo. Deprimi, ao ponto de precisar de apoio médico para dar forças à minha mãe - também ela deprimida com a morte do seu querido Zé - e suportar a artrite reumatóide de que eu já sofria. Mas alguém tem de aguentar e teria de ser eu. A minha mãe foi ficando muito magrinha. Eu alimentava-a, fazia a sua higiene, deslocava-a na cadeira de rodas, mas ela mantinha a cabeça sã e era com que eu conversava.

Naquela manhã entrei no seu quarto, chamei: ‘Mãe..., mãe!’ Partiu durante o sono.”
(continua)

(*) O pintor e astrólogo Paulo Cardoso

Helena Vieira 2


(publicado a 22 de dezembro de 2023)

2|2 HELENA VIEIRA - O canto
(continuação)

“Com o falecimento da minha mãe, durante dois dias fiquei vazia e inerte, sentada no sofá, sentindo-me sozinha no mundo. Só saía para passear a Patinhas, a cadela que herdei do meu irmão. Quando me apercebi da vastidão do meu vazio, liguei para a Casa do Artista. Quando aqui cheguei, só queria estar deitada. Com o tempo aprendi a aceitar a morte, muito ajudada por um estudo de uma igreja japonesa. Mas a saudade é inevitável.

Infelizmente, o meu filho vive no Porto e não o vejo - a ele e ao meu querido neto de 13 anos - tanto quanto gostaria. Dói-me a distância. Falamos com frequência, dizemos que temos saudades mútuas, mas não é o mesmo que estar fisicamente.

Felizmente… tenho umas amigas do tempo da minha mãe que me visitam e levam a passear. Adoro passar a tarde com elas.

Tenho 70 anos, sou diabética desde criança mas cuido-me. Quero viver enquanto a cabeça funcionar, eu puder cuidar de mim e fizer boa companhia aos outros. Mesmo com as minhas mazelas - caminho com dificuldade - ainda consigo divertir-me e divertir os outros com o fino sentido de humor que herdei do meu pai. Dediquei a vida profissional ao canto, uma paixão que me deixou grandes memórias. Comecei a cantar muito cedo, tendo cursado o Conservatório. Cantar profissionalmente para os outros, tocar a sensibilidade das pessoas dando o que de melhor tenho e sentir que elas gostam de nós, faz um bem imenso à alma. Já não posso cantar, mas posso sonhar. Trago dois desejos comigo: para este ano, será rever o meu filho e neto; para os próximos, cumprir o grande sonho de viajar ao Brasil para ouvir ao vivo o cantor, actor e instrumentista Almir Sater. Toca brilhantemente viola caipira, de 10 cordas, descendente da viola braguesa. Adorava conhecê-lo, oferecer-lhe uma viola braguesa - que imagino não tenha - e, sei lá, perguntar-lhe coisas!” (risos)

TOCANDO EM FRENTE
Almir Sater

Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque eu já chorei demais

Hoje me sinto mais forte
Mais feliz, quem sabe
Eu só levo a certeza
De que muito pouco eu sei
Ou nada sei

(…)

É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir

Ivan Coletti – Nós nos Outros

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por Maria Helena da Bernarda

Ivan Coletti 1 Helena da Bernarda

IVAN COLETTI


(publicado a 17 de dezembro de 2023)

1|3 ONDE ME SINTO - Regresso da Maresia Foguete
“Nem eu nem o Pedro adoramos viagens de cruzeiro, mas pela sua mãe, para lhe trazer de volta a maresia e avivar as boas memórias, fomos os três e correu muito bem. A cadeira de rodas em que se move aos seus 90 anos não a impediu de quase nada. Veio recarregada de vida e maresia.

Para nós foi também um merecido descanso depois de um ano de árduo trabalho. Temos ambos 66 anos, mas trabalhamos como se tivéssemos 20. Sou produtor de teatro e televisão. Além da produção e montagem - organizo o necessário para a posta em cena - faço a maquilhagem e caracterização dos atores. Essa vertente, que mantenho, foi a constante ao longo da minha vida profissional e a que me abriu outras portas.

Só este ano produzi a ‘Pentesileia’ no Teatro do Bairro - ainda fazia o Castelo de São Jorge - 'Os Gigantes da Montanha’ de Pirandello nas Ruínas do Carmo e ‘A Tempestade’ de Shakespear no São Luiz… Também eu estava a precisar daquele nosso retiro no mar.

A mãe do Pedro é a figura cimeira de uma família conservadora, com um estatuto sociocultural que a minha nunca teve, e em que fui entrando de forma ‘sorrateira’ e natural, tal como ela em mim. Eu e o Pedro temos uma relação inequivocamente linda, há 38 anos. Creio que foi a evidência dessa beleza que ganhou o respeito de todos. Ainda conheci a avó do Pedro - a avó Lena - a primeira que identificou, com carinho, a natureza especial da nossa relação. A minha sogra é para mim uma segunda mãe. Sentimos cumplicidade. Ela merece receber toda a doçura que eu lhe possa dar. Adoro também os meus cunhados e sobrinhos e sou um orgulhoso padrinho da sobrinha mais velha.

O universo foi generoso comigo… Nasci no Brasil, numa família simples. Os meus pais saíam de casa para o trabalho às 6h da manhã, a minha irmã ia para a escola e eu, com 6 anos, varria, fazia as camas e cozinhava o arroz para o almoço, em cima de uma cadeira. Quando queria ouvir música ia para casa de um tio, que tinha um gira-discos fascinante, como um tesouro. A música que mais me comovia era o fado, cantado pela Amália. Chorava copiosamente. Quando vim a conhecê-la pessoalmente, era como se já a conhecesse de toda a vida.”
(continua)

Ivan Coletti 2 Helena da Bernarda


(publicado a 18 de dezembro de 2023)

2|3 ONDE ME SINTO - A primeiríssima
(continuação)

“Sempre estudei, ainda que aos 12 anos tivesse de ir trabalhar para continuar os estudos à noite. Empreguei-me numa loja como ‘pacoteiro’: fazia embrulhos. Na hora de fazer formação superior, escolhi Artes Dramáticas, porque me fascinava a beleza associada ao espectáculo: do teatro à música, da televisão ao circo. Quando acabei o curso, percebi que tinha '25 pernas esquerdas' como actor. Por outras palavras, era um canastrão! (risos) Mas continuava fascinado pela luzes, tecidos, cores… e pela imagem dos atores.

Um dia, por falta de um maquilhador, ofereci-me para maquilhar uma vedeta que produzia os concursos Miss Brasil. Correu de tal forma bem, que em pouco tempo estava a fazer cursos de maquilhagem e caracterização de atores e a trabalhar para para novelas de televisão.

Nesse meio, conheci um casal alemão que tinha uma clínica de estética orientada para o mundo do espetáculo e me convidou a ir para Munique. A viagem previa uma paragem em Madrid, cidade que não me encantou mas teve, pelo menos, o mérito de atiçar a minha vontade de conhecer Lisboa. Apanhei o comboio em Atocha e entrei em Lisboa ao amanhecer. Já num taxi a caminho do hotel, com a rádio ligada num programa do António Sala e Olga Cardoso, vi o Tejo ao som de ‘Lisboa, não sejas francesa’, na voz da Amália. As lágrimas escorriam-me pela cara abaixo. Não conseguia parar de chorar mas, sem saber, pararia em Lisboa para o resto da minha vida. Adiei Munique, até sempre.

Aqui contactei a RTP, que assegurou os primeiros dias com trabalhos de maquilhagem ocasionais. No meu jantar de despedida, aproximou-se uma senhora da minha mesa, perguntando: ‘O rapaz está triste, ou é triste?’ Depois, abeirou-se de um piano e, olhando na minha direção, começou a cantar: ‘Eu sei que eu tenho um jeito, meio estúpido de ser…’. Era a Simone de Oliveira, senhora com quem construí uma forte relação de amizade, que perdura. Criei outras amizades, mas ela é a primeiríssima!

A despedida não se deu porque, trabalho atrás de trabalho, mesmo em recibos verdes, havia sempre uma razão para ficar.

Um dia, recebi uma mensagem do Nicolau pedindo para falar comigo.”
(continua)

Ivan Coletti 3 Helena da Bernarda


(publicado a 19 de dezembro de 2023)

3|3 ONDE ME SINTO - Amor
(continuação)
“O Nicolau queria montar uma produtora e precisava de mim. Eu não o conhecia. Combinámos encontro no Parque Meyer. Quando lá cheguei, perguntei a um senhor quem era o Nicolau Breyner. Respondeu-me: ‘Vem falar com esse senhor? Ele é má pessoa. Péssimo mesmo!’ Pintou-me o pior cenário. Apreensivo, ainda esperei 20 minutos, observando o Varela a ensaiar. Quando decidi desistir, o mesmo senhor a quem me dirigira perguntou-me onde ia eu.

Respondi que ia embora, deduzindo que o Sr. Nicolau já não quereria falar comigo, ao que ele respondeu, com um sorriso maroto: ‘Eu sou o Nicolau Breyner!” De terrível não tinha nada. Adorei aquele homem, para quem trabalhei muitos anos.

Foi na produtora dele que encontrei o amor da minha vida. Um dia, o Pedro convidou-me para jantar e… passámos a jantar sempre juntos até hoje. Ele fez-me sentir que nasci duas vezes: a segunda em Lisboa. Hoje sou muito mais português que brasileiro.

Trabalhámos durante 20 anos frente a frente mas, inteligentemente, nunca levámos o trabalho para casa. Casámos 25 anos depois de estarmos juntos, com a maior discrição. Só nós dois. Quando informámos os seus pais, recordo a reação do pai, um senhor que eu adorava. Era calmo e silencioso, o que impõe sempre um especial respeito. Cruzou os braços e perguntou: ‘Vai haver festa?’ Perante a nossa negação, abriu os braços e respondeu: ‘Isso é que está mal!’ (risos) Acho que o Pedro quis, com o casamento, salvaguardar a minha situação no caso de partir antes de mim. Nem quero pensar nessa hipótese, mas ele pensou.

Tenho a consciência da diferença que existe entre o património de um e outro. Mas, para mim, é claro que todas as peças que ele tenha de família, para a sua família voltarão. Não penso na morte, vivo o dia presente. O universo deu-me tudo, mas o mais importante foi o Pedro e a relação pura que vivemos. Ao lado dele, nunca senti o custo da fidelidade; ela surge naturalmente. Nunca penso no que não tive ou ficou por fazer, da mesma maneira que não faço grandes planos para o futuro. Caminhamos juntos em total sintonia, sempre de acordo um com o outro, sempre sem desejo de estar noutro lugar. Estou onde me sinto!”

Luísa Afonso – Nós nos Outros

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por Maria Helena da Bernarda

Luisa Afonso 1

Luísa Afonso


(publicado a 19 de setembro de 2023)

1|3 COMO PEDRA NA PAISAGEM - A mudança
“Tenho 78 anos de uma vida com alguns desgostos profundos, mas todos os dias acordo feliz, só por estar acordada. Sei que um dia não vou acordar. E só por poder ver a luz de um novo dia, tenho de agradecer a Deus. Mas também acredito que haverá outra vida, certamente melhor que esta.

Talvez seja a minha origem transmontana que me dá a resistência. Trás-os-Montes é rica em lendas. Diz-se que lá, as mulheres são homens e os homens são lobisomens. É uma outra forma de dizer que as pessoas são autênticas, terra-a-terra, rijas como a pedra que prevalece naquela paisagem. A perda repentina dos meus pais, em momentos diferentes, foi um choque. Embora eu já não vivesse com eles, a ligação era profunda. Possibilitaram-me uma infância e adolescência maravilhosas. Fui feliz como nunca mais viria a ser.

Eu adorava subir às árvores com os meus irmãos, que eram muitos. Não nos faltava comida. Brinquedos também não, porque a Natureza era toda ela um brinquedo, e era toda minha. Quando acabei a 4ª classe, não podia continuar a estudar. Comecei a ocupar-me com as tarefas domésticas, a agricultura e o gado. Mas o que eu mais adorava eram os arraiais, que me permitiam dançar na rua com as minhas irmãs. Eu devia destacar-me, porque as pessoas estancavam à minha voltar só para me ver dançar.

Um dia, a minha irmã mais velha, que fazia serviço doméstico como interna em Lisboa, convidou-me a vir com ela. Teria eu 17 anos. Custou-me deixar os meus pais, quase tanto como convencê-los a deixar-me vir. Lembro-me de ver a minha mãe chorar - era muito agarrada aos filhos - e de eu fazer um esforço para me manter dura. Não podia quebrar. Se eu chorasse, o meu pai ter-me-ia impedido de vir.

Fiquei com a minha irmã na casa onde ela trabalhava. Um dia, ela levou-me a ver uma revista com a Florbela Queiroz. Fiquei tão encantada que pensei: ‘É isto que eu quero fazer!’

Dito e feito! Quando cheguei a casa com a minha irmã, inventei uma desculpa para sair, regressar ao teatro e dizer: ‘Quero vir para o Teatro!’ Só assim!

No dia seguinte ia começar um revista nova e disseram-me que me apresentasse às 4h da tarde para prestar provas como bailarina.”
(continua)

Luisa Afonso 3


(publicado a 20 de setembro de 2023)

2|3 COMO PEDRA NA PAISAGEM - Tudo menos isso
(continua)

“Sem formação, comecei a vida como bailarina no teatro de revista. Estreei-me com 17 anos. O meu primeiro ensaiador perguntou-me se alguma vez eu tinha aprendido dança ou ginástica. Respondi-lhe que a minha única ginástica era subir às árvores, na minha terra.

Ele ensinou-me tudo. Precisei de arranjar mil desculpas em casa para não faltar aos ensaios. Rapidamente aprendi a dançar em pontas. Quando me consideraram-me apta, quiseram fazer-me um contrato e pediram-me o Bilhete de Identidade. Aí é que foi o problema. Em vez de ficar eufórica, fiquei preocupada por ser menor. Só tinha 17 anos. Precisavam da permissão do meu pai. Mas se ele estava em Trás-os-Montes?!

Lá ultrapassaram o entrave, fazendo-me um contrato no qual fui tutelada pelo Ministério do Interior. O Ministério é que foi legalizar uma ilegalidade. (risos) Liguei-me de tal forma ao teatro que fiz quase tudo o que havia para fazer além da dança, desde interpretação ao fabrico de adereços. Fiz muitos chapéus. Mesmo no mundo do espectáculo, sempre gostei de me levantar e deitar cedo. De certa forma, isso protegeu-me de muitos riscos. Só não me protegeu do meu primeiro e único amor…

Foi no Teatro que o conheci. A nossa ligação foi imediata e profunda. Vivemos juntos 4 anos, relação que me deu a minha única filha, tinha eu 20 anos. Quando a menina tinha 2 anos e meio, ele ficou fora de casa uns dias… pensava eu. Quando ouvi a mulher do chefe dele dizer ‘Olhe, o Pinho casou ontem e está em lua-de-mel’, fiquei de pedra. O choque foi de tal maneira que decidi nunca mais querer homem nenhum. Passaria a ser a mulher mais independente do mundo, preparada para criar a minha filha sozinha. Ele enganou-me tão bem, que nunca poderia voltar a confiar num homem.

Nunca mais o vi. Só sei que após ter casado, emigrou para a Alemanha. Partiu sem dar o nome à filha. Tive de ir a Tribunal, para que ela tivesse o seu apelido. Consegui-o, sem que ele exigisse teste de paternidade, pois conhecia-me bem. Nunca exerceu de pai nem deu a mínima contribuição para o sustento da menina. Eu também não lhe pedi nada, não fosse ele tirar-me a filha. Tudo menos isso!”
(continua)

Luisa Afonso 2


(publicado a 21 de setembro de 2023)

3|3 COMO PEDRA NA PAISAGEM - Desgosto maior
(continuação)

“Não consegui dar um pai à minha filha, mas nunca lhe faltei com nada. Isso não impediu que nela se instalasse uma amargura.

Um dia ela quis falar ao pai, teria 9 anos. Queria explicações que eu não lhe podia dar. Ajudei-a a enviar uma carta, endereçada através de uma assistente social, para evitar o contacto. A mesma senhora escreveu de volta, dizendo que o pai pedia que a filha não o contactasse pois a mulher era ciumenta e far-lhe-ia a vida num inferno. Custou-me tanto dizer à minha filha que o melhor era ela esquecer e que não valia a pena estragar a vida ao pai. ‘Vamos dar-lhe esse direito’, disse-lhe. E a minha filha respeitou a sua vontade, certamente com muita dor. O tempo passou mas, infelizmente, eu e a minha filha não mantemos uma relação de proximidade. Eu resigno-me, tentando aceitar os seus traumas. Também aceito a angústia que possa ter sentido quando eu ia para o Teatro e ela ficava sozinha, por falta de apoio familiar. Aceito não ter sido o tipo de mãe com uma vida estável, que todos os filhos gostam. Vivo em esforço para compreender o seu afastamento, há muitos anos já…

Pouco anos depois de a minha filha casar e ser mãe, sentindo que o meu próprio papel de mãe estava cumprido, emigrei para os Estados Unidos, disposta a fazer qualquer trabalho sério. Precisava de ganhar a vida. Aos fins-de-semana fazia teatro, mas isso não dava para me manter. Então, nos dias úteis trabalhava a dias.

Durante a minha estadia na América falávamo-nos, trocávamos cartas e telefonemas. Todos os anos vinha visitá-la à Amadora.

Um dia, fui visitá-la e já lá não vivia. Sem qualquer zanga entre nós, apagou todos os rastos. Fiz várias tentativas de a procurar, mas desconheço a nova morada e não há ninguém que me dê o mínimo sinal da sua vida. Hoje ela tem 58 anos e seis filhos, netos que não vejo.

Vivo na Casa do Artista desde os 64 anos, entre a resignação e a esperança. Mantenho uma fé inabalável em Deus, mas o meu coração fechou-se, salvo para apoiar todos os residentes que mais precisam de ajuda.

A Deus, só Lhe posso dar contas daquilo que eu faço e só Lhe peço uma coisa: que nunca abandone a minha filha.”

Luisa Afonso 4 Helena da Bernarda


(publicado a 22 de setembro de 2023)

O REENCONTRO
CLIQUE NA IMAGEM PARA VER VÍDEO DO REENCONTRO!!

“Quando cheguei àquela casa, nunca pensei que abrissem a porta a duas desconhecidas. Fomos recebidas por uma jovem - mãe de um bisneto meu cuja existência desconhecia - e pela sua mãe. Assim que eu disse de quem era avó, os braços abriram-se-me com imensa generosidade.

Disseram-me que a minha filha estava viva e bem - tudo o que eu queria ouvir - e que ela lhes falava de mim. Senti que me tiraram 20 anos de angústia. Fizeram-me sentir que ali eu estava em família. Parecia que todas estávamos à espera daquele momento. Maior pressão senti quando me disseram que a minha filha e neto estavam a chegar para entregar o meu bisneto. Quando a campainha tocou e ouvi os passos na escada, aí realmente senti o coração a bater forte. Nem sei descrever o que senti após uma espera de duas décadas: era urgência, ansiedade, receio…

Eu desejava conhecer toda a família mas a minha filha… é o amor da minha vida. Quando ela me viu, abriu imediatamente os braços e fundimo-nos num abraço demorado. Só me lembro de que ela me disse: ‘Eu amo-te muito, mãe’. Respondi: ‘Também te amo muito, filha!’ Já não recordo mais nada. E mais nada era preciso dizer, naquele momento. E, se calhar, é só isso que mãe e filha crescidas precisam dizer. Desejo desenvolver uma proximidade com todos, mas a ligação à minha filha é única. É que os netos não os vi crescer; ela sim!

Acabou-se a angústia de saber o que lhe possa ter acontecido. Parti com um alívio inexplicável e a mesma certeza: o meu amor pela minha filha é incondicional. Decidimos as duas que a história da nossa vida era a que quiséssemos contar daqui para a frente. O nosso livro só tem páginas brancas. Acho que esta noite não vou conseguir dormir. Mas desta vez é de felicidade!”

NR: As fotografias foram feitas com telemóvel, após as lágrimas terem sido limpas. A máquina ficara no carro, porque o objectivo não era fotografar o momento. Por um lado não se esperava que este reencontro acontecesse já hoje. Por outro, não havia intenção de fotografar. Mas foi tudo tão espontâneo - os olhares, os beijinhos - que não resisti.

BELCANTO

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BELCANTO - RITA MARQUES & PEDRO LOPES

BELCANTO é o primeiro álbum de Rita Marques, em conjunto com o pianista Cameron Burns. Conta com canções de G. Rossini, V. Bellini, G. Donizetti e G. Verdi e também de compositores portugueses da mesma época nomeadamente Emilio Lami, Francisco Santos Pinto e Julio Neuparth.
Por motivos de agenda, Rita Marques será acompanhada pelo pianista Pedro Lopes neste recital.

Booking:
Promusical Produções
management.belcanto@gmail.com

produtora

AGENDA TEATRO ARMANDO CORTEZ

A Toda Poderosa

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A TODA PODEROSA

A atriz Viviane Araújo volta aos palcos para uma curta temporada do espetáculo “A toda poderosa”, dirigido por Catarina Abdala, em Portugal. Na comédia ao lado do ator Maciel Silva, a rainha de bateria do Salgueiro interpreta o papel de Deus. A trama, no entanto, não diz respeito a uma história religiosa. Trata-se, na verdade, de uma crítica ao poder e aos entraves burocráticos vividos pelos brasileiros no dia a dia.
Na peça, Viviane contracena com a figura do Diabo, que deseja passar férias no Brasil. Antes, no entanto, Deus ordena que ele pague taxas no banco, vá ao cartório reconhecer firma, tire cópias autenticas dos documentos, dê um pulo à Receita Federal e ao INSS, além de marcar um consulta em uma rede pública de saúde e receber ligações de uma operadora de telemarketing.

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AGEING CONGRESS 2024

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AGEING CONGRESS 2024

O Ageing Congress (Congresso sobre Envelhecimento) é um evento que reúne especialistas, investigadores, profissionais de saúde e outros interessados no estudo e na promoção do envelhecimento saudável. Este congresso aborda uma ampla gama de tópicos relacionados com o envelhecimento, incluindo aspetos médicos, sociais, psicológicos e econômicos.

O Ageing Congress 2024 realiza-se no Teatro Armando Cortez, focando em questões atuais e relevantes relacionadas ao envelhecimento populacional, políticas de saúde, avanços médicos, qualidade de vida dos idosos, entre outros temas pertinentes.

Estes congressos mostram-se importantes para promover o intercâmbio de conhecimentos e experiências, além de incentivar a colaboração entre profissionais e investigadores de diferentes áreas relacionadas ao envelhecimento.

Gerardo Rodrigues | Piano Solo Tour’24

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GERARDO RODRIGUES | Piano Solo Tour 2024

Gerardo Rodrigues Piano Solo Tour ’24

 

12 maio | 17h30 | Teatro Armando Cortez 

 

 

APÓS O SUCESSO DA “PIANO SOLO TOUR” EM 2022, REGRESSA A “PIANO SOLO TOUR ’24” O ano de 2023 foi marcado por várias conquistas para o pianista português Gerardo Rodrigues. Depois de vários concertos pelo país (já soma mais de 100 concertos com este projeto), terminou o ano com vários concertos pela Europa – que se revelaram um verdadeiro sucesso!
O ano de 2023 foi marcado por várias conquistas para o pianista português Gerardo Rodrigues. Depois de vários concertos pelo país (já soma mais de 100 concertos com este projeto), terminou o ano com vários concertos pela Europa – que se revelaram um verdadeiro sucesso! Neste novo ano, enquanto prepara o seu próximo álbum e as novidades que irão ser lançadas ao longo dos 12 meses, quer voltar a emocionar os portugueses com a Piano Solo Tour. O concerto que vos apresenta consiste em 90 minutos de emoções puras e simples, capaz de transportar todos os públicos para um mundo paralelo de paz e harmonia. Não perca este concerto, a única data em que Gerardo Rodrigues passará pela cidade de Lisboa nesta “Piano Solo Tour ’24”.

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