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José Manuel Fonseca (Nós Nos Outros)

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por Maria Helena da Bernarda

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José Manuel Fonseca


(publicado a 17 de setembro de 2023)

FASCINAÇÃO
“Vim para a Casa do Artista em 2015, com a minha mulher. Vim por ela, como iria com ela para onde fosse.

Estivemos 53 anos juntos. Só a sua morte, há 4 anos, nos separou fisicamente. Mas ela não saiu de mim. Continuo a sentir-me casado, razão pela qual nunca tirei as alianças.

Fui seu cuidador na doença prolongada - Demência de Corpos de Lewy, uma combinação de Alzheimer e Parkinson - e seu marido em qualquer circunstância. Só não lhe dava o banho, por falta de conhecimento, mas dava-lhe comida na boca, pintava-a, passeava-a na cadeira de rodas…

Sempre senti por ela um amor imenso; imenso, até nos seus últimos dias, já em estado vegetativo. Ela merecia todo o meu amor, pois foi sempre uma excelente companheira, uma mãe extremosa e uma avó impressionante. Temos dois filhos e dois netos.

Ambos adorávamos música e leitura. Éramos cúmplices em tudo na vida, desde os gostos às tarefas domésticas. A sua demência progressiva começou dois anos antes de virmos para aqui. Um dia partiu a casa toda. Não me zanguei com ela, como poderia eu zangar-me com uma doente?

Ainda aguentei o que pude, até reconhecer que o melhor para ambos era virmos juntos - sempre juntos - para a Casa do Artista. A partir de certa altura ela já não reconhecia ninguém, senão a mim. Quando sofria de dores durante o banho, sempre chamava o meu nome, o único que ela conseguiu dizer até ao fim: 'Zé'. Foi um amor para a vida. Nunca admiti substituí-la, nem pouco mais ou menos.

Nos seus últimos dias, foi para uma clínica, para morrer. Aí eu não podia ficar de noite mas passava lá as tardes, falando-lhe, dando-lhe festinhas, tranquilizando-a. Instalei duas colunas no quarto e punha a tocar as músicas de que ela mais gostava. Adorava ‘Fascinação’, da Elis Regina. Estava ao seu lado quando morreu, o que, de certa forma, me ajudou. Já estava preparado para a deixar ir.

Não sou assim por compromisso religioso ou moral. A dedicação que mantenho por ela é espontânea, não uma obrigação. Não faço nada por obrigação, mas por instinto. Não confundo valores com dogmas. Eu sou de valores, dos que vêm de dentro para fora.

Já não deixei a Casa do Artista. Com 82 anos, não podia estar num lugar melhor.”

Fotografia: Mª. Helena da Bernarda

Anita Guerreiro (Nós Nos Outros)

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por Maria Helena da Bernarda

Anita Guerreiro 1

Anita Guerreiro


(publicado a 16 de setembro de 2023)

CHEIRA A LISBOA
“A Casa do Artista é hoje a minha casa e o fado sempre foi a minha alma…

Batizaram-me de Bebiana Guerreiro Rocha, mas esse não é nome artístico. Aproveitaram o Guerreiro, para dar luta, e juntaram-lhe Anita, mais carinhoso. Até aos meus 12 anos, éramos cinco lá em casa: os meus pais e as três filhas. Nessa altura passámos a quatro, porque a nossa mãe faleceu de febre tifoide. Nunca tive desgosto maior. Ela era muito querida; estava sempre a fazer bem a toda a gente. Comecei a cantar na escola primária o hino nacional, que era obrigatório. A minha voz distinguia-se e puseram-me logo como primeira figura. Pelos 14 anos, já cantava na coletividade Sport Clube Do Intendente. Entrei lá numa revistinha e já não me largaram.

Fiz muita revista, cantei e lancei muitos fados originais, mas talvez o mais conhecido é o ‘Cheira Bem, Cheira a Lisboa’, com letra do César de Oliveira. Também fui Madrinha de muitas marchas populares de Lisboa, entre elas a ‘Marcha dos Mercados’. Fiz teatro, cinema, televisão e muita avenida abaixo nos Santos Populares. Abri ainda um restaurante e casa de fados, a casa típica Adega da Anita, à entrada do Parque Mayer Em tudo fui feliz, porque me entreguei com toda a minha alma. Ainda gosto muito de cantar. A voz pode não ser a mesma, mas a alma é.

Tive um primeiro casamento demasiado cedo, que não me deu filhos. Casei pela segunda vez com o Pepe Cardinali, cantor e ilusionista do Circo Cardinali, com quem tive dois filhos e me fez muito feliz. Nunca foi ciumento, nem eu nunca lhe dei razões para isso. Além disso, ele vinha do mundo do espetáculo, que compreendia bem. Gostava de me ver atuar, mesmo muito doente.

Ele adoeceu de Alzheimer e uma parte de mim adoeceu como ele. Quando o perdi, ficaram muitas saudades e a certeza de que nunca iria dar espaço a mais ninguém. Dizem que sou generosa e que não trato mal ninguém, mas também dizem que sou um bocadinho teimosa e disso eu tenho a certeza que sim. Mas há muitas outras coisas de que já não tenho certeza. É que a memória já me vai falhando, o que até convém dizer a quem nos pergunta a idade!” (risos)

Fotografia: Mª. Helena da Bernarda

Maria Isabel Mexia (Nós nos Outros)

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por Maria Helena da Bernarda

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Maria Isabel Mexia


(publicado a 14 de setembro de 2023)

1|2 UMA COISA E O SEU CONTRÁRIO - O amor
“Completei 90 anos na Casa do Artista, onde vivo há 6 anos, bem acompanhada. Mas mantenho proximidade com os meus sobrinhos, a quem fui sempre muito ligada. Nunca casei. Tive uma vida linear, dentro dos carris da minha geração. Fui professora de piano durante toda a minha atividade profissional.

Ter seguido por linhas direitas não significa que não tivesse as minhas contradições, tão próprias da natureza humana. Não casei mas vivi um amor de 6 anos. O amor é mais delicado e exigente do que a paixão e tive a sorte de perceber esse sentimento. Teria sido expectável ter casado. Não aconteceu porque percebemos que o casamento não resultaria. Havia incompatibilidades que nos afastavam e que envolviam familiares mais conservadores. Mas não lamento esse tempo, porque enquanto durou, fui feliz. E eu não vivo só em função de um propósito, vivo em função da verdade.

Depois… não aconteceu encontrar alguém que me interessasse muito. Não me venham falar em amor único. Eu não estava fechada, mas fui sempre muito independente e nunca procurei nada nos homens.

No meu tempo, o homem estava habituado a ser adulado e eu nunca tive jeito para me submeter a esse papel.

Devo essa postura à minha avó paterna - a avó Alice - com quem vivi muitos anos em Coimbra, cidade onde estudei, dado os meus pais viverem na Lousã. Se não fosse ela, talvez eu tivesse casado muito cedo com um rapaz de quem não gostava e me fazia a corte na minha tenra adolescência. A minha família gostava dele - já cursava Engenharia - mas essa minha avó compreendia-me. Um dia disse-me: ‘Filha, não és feliz. Ele não é homem para ti!’. Ela própria tinha sentido na pele o peso do preconceito. Casou com o meu avô aos 18 anos, quando a paixão dela foi outro rapaz. Mas a sua mãe disse-lhe que preferia vê-la morta a vê-la casada com o homem de quem gostava. E naquele tempo não era fácil contrariar a família.

A minha avó nunca deve ter sido feliz, porque tinha uma personalidade muito à frente do seu tempo, mas uma vida formatada pela tradição.

Devo-lhe a ela a minha independência. Se não fosse ela, teria casado com o primeiro pretendente e não teria conhecido o amor.”

Fotografia: Mª. Helena da Bernarda

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(publicado a 15 de setembro de 2023)

2|2 UMA COISA E O SEU CONTRÁRIO - Deus está para todos
“Fui uma de seis filhos. Fiz o liceu e depois o curso superior de Piano e Composição. Revejo-me na composição musical clássica. Gosto daquela certeza. Gosto da vida regrada, da rotina, do compasso, do som do metrónomo. Gosto da vida sempre igual, dá-me segurança. Daí não me ser fácil adaptar a outros andamentos. É certo que à rotina dos dias tem de se juntar sensibilidade e luminosidade, senão seríamos máquinas vivas.

Às vezes penso que fui sempre uma coisa e o seu contrário, ao ponto de cair na contradição: sou simples e complicada, mas mais complicada do que simples! (risos)

Gostaria talvez de ser mais elástica. Tenho tendência para a preguiça, o que gera um certo desleixo. Forço-me a impor alguma ordem à minha volta. Mas creio que tive sempre a faculdade de comunicar, de evitar o conflito e de gostar das coisas bonitas.

A idade trouxe-me mais tolerância, até para aceitar o que não compreendo totalmente. Por exemplo, tenho dificuldade em compreender a homossexualidade, mas respeito e aceito. Então se as pessoas gostam, quem sou eu para dizer que não é bom? (risos)

A Casa do Artista tem seis pianos mas já não toco. Como estou destreinada e sou exigente comigo, prefiro escrever, que é uma atividade solitária e de que ainda sou capaz. Vou fazendo os meus escritos sobre episódios que vivi ou assisti. O meu sobrinho Pedro lembrou-se de os reunir e editar em livro.

Sou católica, profundamente crente mas não fanática. Rezo todos os dias e acredito que Cristo ultrapassou tudo o que a Musa antiga canta, como dizia Camões. Cristo, no seu tempo, tentou que todos fossem filhos de Deus, desde os poderosos aos escravos. Deus está para todos.

Como rezo por todos, rezo por mim também. Remeto para as minhas orações o que me pode perturbar, nunca para um psicólogo. Rezo para não cair e fracturar um osso. Rezo para não precisar dos outros. Outro dia até pensei que se rezo a Deus e aos Arcanjos para que não me aconteça nada de mal, então nunca mais morro! (risos)

Não desejo a vida eterna mas quando morrer, que morra em paz! Até lá, vivo o melhor de que sou capaz!”

Fotografia: Mª. Helena da Bernarda

Pedro Miranda (Nós nos Outros)

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Pedro Miranda


(publicado a 8 de agosto de 2023)

A SEDUÇÃO DO DESCANSO
“Sou licenciado em Biologia e trabalhei 5 anos como biólogo, mas tive sempre um gosto especial por decoração.

Um amigo cenógrafo, sabendo do meu gosto, desafiou-me para o ajudar na produção de uma nova novela do Nicolau. Eu tinha pouco a perder, pois ainda trabalhava a recibos verdes, pelo que aceitei. Novela atrás de novela continuei, sempre adorando o que fazia. Em pouco tempo passei a Assistente de Realização e, mais tarde, a Produtor.

Trabalhei muitos anos com o Nico, o que foi sempre um prazer. Com ele estive na Atlântida, depois na Edipim,…, segui-o por onde ele me quis levar, até me contratar numa base fixa quando criou a NBP. Ele era um excelente criativo mas não um financeiro. O Nicolau foi o pai das novelas portuguesas, mas tirou um peso de cima quando vendeu a sua parte na NBP, entretanto designada de Plural após ser adquirida pela Media Capital.

Desliguei-me desta produtora há dois anos, ao fim de 28 de colaboração. Embora estivéssemos em pandemia, havia muito trabalho. Nunca parámos de fazer novelas, com uma logística mais exigente, desde desinfeção a cumprimento de distâncias. Quando havia cenas de beijos, por exemplo, os actores tinham de ser testados dois dias antes.

Com a minha saída percebi que, para eles, tinha chegado o fim do meu prazo de validade, ainda que eu me sentisse competente. Aceitei essa divergência com naturalidade.

Aproveitei a minha disponibilidade para fazer voluntariado na Casa do Artista. Entrei em Novembro de 2021 e, na verdade, não tenho parado de desenvolver projectos. Neste momento estou a produzir um livro de retratos de 100 artistas portugueses, como nunca ninguém os viu.

Este surpreendente projecto, que não deixará ninguém indiferente, envolve a Casa do Artista, a Altice, a SPA e o seu autor e visionário, o Mestre António Homem Cardoso.

Tenho muito gosto em continuar aqui como voluntário até me reformar, o que acontecerá em Março do próximo ano. Haverá então um virar de página. Espero voltar a viajar, talvez mudar de casa e… descansar.

Sempre fui tão activo, que estranho esta sedução do descanso. Será sinal de velhice?" (risos)

Fotografia: Mª. Helena da Bernarda

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(publicado a 9 de agosto de 2023)

MARESIA
“Sou filho de uma bonita história de amor e vivo uma bonita história de amor…

A minha mãe residia com a família em Angola. Numa viagem de navio a Portugal, conheceu o meu pai a bordo, pois ele era, na altura, o segundo piloto. O seu romance foi-se desenvolvendo em viagens de longa distância - uma delas a Moçambique - até casarem, dois anos depois. Sempre adoraram viajar.

Eu sou o mais velho de três filhos. Nasci em Angola, tendo vindo de lá com um ano. Fomos depois viver para Moçambique - sempre as longas viagens de barco marcando as nossas férias - mas a partir da idade escolar fixámo-nos em Portugal.

Quando o meu pai partia por 4 meses, umas vezes a minha mãe ficava; outras acompanhava-o, deixando-nos com os nossos avós. Lembro-me que numa dessas vezes fomos todos; foi muito bom. A profissão do meu pai salpicou as nossas memórias de maresia.

Os meus pais tiveram um casamento feliz de mais de 60 anos, só interrompido pelo falecimento dele em 2014, com 89 anos. Eu vivo com o meu marido há 36 anos. Além disso trabalhámos 19 anos juntos, pelo que nos conhecemos muito bem. Casámos discretamente quando fizemos 25 anos de convivência, sem testemunhas - não quisemos festa - e sem a mínima dúvida do passo que dávamos.

Cheguei a ter namoradas e estive quase para casar, mas eu sentia que não devia ir por aí. Quando tive a primeira experiência homossexual, tive a certeza.

Nunca precisei de dizer nada a ninguém. Os meus pais e até a minha avó perceberam, sem me fazerem perguntas. Conheceram o Ivan, o meu marido, sem qualquer reserva.

Hoje a minha mãe está com 90 a nos e preocupa-me que ainda viva sozinha. No entanto, sempre foi muito independente, tanto que há uns 6 anos foi saltar de pára-quedas com a minha irmã. Insiste em manter a sua independência mas todos os filhos estão preocupados.

Se eu faço por ser um bom filho, o Ivan tem sido um genro extraordinário. De tal forma que ele mesmo sugeriu voltarmos a fazer um segundo cruzeiro os três, para lhe trazermos de volta a maresia. Fizemos o primeiro, um ano após o falecimento do meu pai. Agora, aos seus 90 anos, ela merece passar períodos felizes. Na sua idade, cada período feliz vale uma nova vida.”

Fotografia: Mª. Helena da Bernarda

Celeste Passarinho (Nós nos Outros)

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Celeste Passarinho 1

Celeste Passarinho


(publicado a 5 de agosto de 2023)

UMA CASINHO NO CAMPO
“Fiz 60 anos, os últimos 18 como colaboradora da Casa do Artista. Isto foi um céu que se abriu numa altura muito difícil da minha vida…

Em 2005 estava a passar por uma depressão, consequência de vários factores. A minha mãe tinha falecido 5 meses antes, vítima de cancro, tendo sido eu a sua cuidadora durante 6 meses a fio, noite e dia. Eu tinha marido mas não muita saúde e não consegui gerir o culminar desse processo, um misto de desgosto e exaustão.
Tive o apoio de uma médica muito amiga, como família, filha do Henrique Santana e da sua mulher, Maria Helena Matos, em casa de quem trabalhei mais de 20 anos como empregada doméstica. Chamavam-me afilhada e inclusive viajava com eles. Eram como meus pais.

Saíra do Carvalhal de Abrantes aos 18 anos para servir em sua casa. Só tive electricidade na minha aldeia aos 11 anos; no verão, tínhamos um tanque que fazia de piscina; o campo imenso para brincar em liberdade. Tive, afinal, o principal: fartura na mesa e uma infância feliz.

Quando a filha do Henrique Santana soube que vinha trabalhar para aqui, riu-se e disse-me que estava destinada a cuidar de idosos.
O Sr. Henrique faleceu comigo no Hospital da Cuf, em 94. Eu ficava lá de noite a acompanhá-lo. Continuei a cuidar da Dona Helena, que faleceu praticamente nos meus braços, em 2002. Nessa altura fiquei sem trabalho, o que também me abalou. Dois anos depois faleceu a minha mãe.

Quando o telefone tocou, ouvi a voz de uma senhora amiga da Dona Helena e voluntária da Casa do Artista, informando que a Dona Manuela Maria estaria necessitada de uma pessoa com as minhas características. Receosa, aceitei vir à entrevista. Em boa hora o fiz. Estando a tratar-me de depressão, abandonei logo a medicação e posso afirmar que o trabalho foi a minha melhor terapia.

Vim como assistente administrativa e, desde há 12 anos, sou Encarregada dos Serviços Gerais, gerindo a equipa de limpeza e produtos associados.
Trabalho bastante, mas em casa também não descanso. Lá, tenho o marido e a minha sogra debilitada, de quem sou também cuidadora.
Sou muito de afectos, mas confesso que às vezes ando tão cansada que só sonho com o que já tive: uma casinha no campo.” (risos)

Fotografia: Mª. Helena da Bernarda

Sónia Vieira (Nós nos Outros)

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por Maria Helena da Bernarda

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Sónia Vieira

= Filha da nossa estimada Residente, Florência Vieira =

(publicado a 10 de agosto de 2023)

ENTRE TANTO...
“Vivo em Gaia mas venho todos os fins-de-semana a Lisboa ver a minha mãe * à Casa do Artista, para onde veio residir em Março passado.

Após um AVC, ficou necessitada de cuidados acrescidos que, com muita pena minha, não lhos posso prestar.

Fui professora de dança durante vários anos, mas agora estou mais orientada para a área holística: dou aulas de meditação e ioga, a maioria das quais ao final do dia, que seriam as horas em que ela mais precisaria da minha assistência.
A vida actual é difícil a todos os níveis: é difícil para os mais idosos mas também para a geração abaixo, quando ainda trabalha e não tem recursos extra para cuidar.
Tenho muita pena que não haja um polo da Casa do Artista na região norte, ainda que fosse uma unidade mais pequena. Não havendo, ou enquanto não houver, eu não gostava que ela entrasse num lar descaracterizado. Aqui, estando a minha mãe rodeada de tantas pessoas ligadas à vida artística - figuras que povoaram a sua vida - com actividades também ligadas ao mundo do espectáculo, acredito que é a melhor casa onde ela poderia estar.

Sou filha única e não tenho com quem dividir o apoio que a minha mãe merece. Mas também fui a única a acolher todo o seu amor maternal. Por isso, prefiro suportar eu o preço da distância que vê-la deslocada num mundo onde não se reconhece.

Desde Março que faço 620 kms todos os sábados - 7h de autocarro - às vezes sozinha e outras na companhia do meu marido, como hoje, sem pensar nos gastos e no sacrifício.
Venho religiosamente, ansiosa de ver nela o sorriso com que me recebe e parto com um sentimento de gratidão por saber que ela, aqui, está tão bem cuidada. Entretanto, passo com ela umas três a quatro horas; conversamos muito e vamos almoçar fora.

Quando eu era bebé e criança pequena, ela estava no auge da sua carreira e tive o grande apoio dos meus avós. Mas desde a escola primária - desde que me conheço como pessoa - a minha mãe foi sempre muito presente; foi mãe e pai.

O mínimo que posso dar a quem me deu tanto é um dia da minha semana. Os outros seis? Falamos pelo menos duas vezes por dia: depois do almoço e do jantar. É pouco para mim e tanto para ela!”



NR * A cantora Florência

Fotografia: Mª. Helena da Bernarda

Sofia Bendinha (Nós nos Outros)

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por Maria Helena da Bernarda

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Sofia Bendinha


(publicado a 6 de agosto de 2023)

1|2 UMA MULHER E TANTO - Simplesmente
“Nasci em Luanda há 49 anos, numa família com boa condição económica. O meu pai era um empresário dinâmico, pelo que nunca nos faltou nada em casa. Ele tinha comércio, um restaurante e ainda um conjunto musical. Era um homem muito desejado, razão pela qual, além dos 12 filhos que teve com a minha mãe - a única mulher legítima - ainda teve mais seis por fora, estando casado. No entanto, havia nele uma certa integridade, que o levou a trazer para casa todos os seus filhos com outras mulheres. Se é verdade que ele foi recto para com as crianças, também é verdade que a minha mãe foi muito bondosa, pois criou aqueles seis meninos como se fossem seus. Eu não seria capaz de aceitar isso ao meu marido, mas não deixo de admirar o altruísmo da minha mãe e a sua capacidade de amar quaisquer crianças, simplesmente.

Nenhuma das mães quis ficar com os filhos porque em casa do meu pai eles podiam ter acesso à mesma educação que os outros irmãos. Não havia diferenças.

Já vivi bem, mas por força da instabilidade crónica do meu país, fui levada a tomar decisões difíceis. Mas nunca tive medo de tomar decisões, mesmo que difíceis…

Quando os meus pais faleceram, os filhos decidiram prosseguir com os negócios. Uns ficaram com o restaurante; eu e duas irmãs começámos a comprar roupas, malas e calçado na África do Sul e vendíamos na loja. Mas as angolanas que importavam daquele país começaram a ser roubadas. Havia angolanos que informavam sul-africanos das nossas características físicas e, por duas vezes, sofremos tentativas de assalto. O dinheiro já não ia nas nossas malas, ia dentro dos nossos penteados. Trocávamos de roupa dentro dos aviões, para não sermos identificadas. Tornou-se tudo tão difícil que decidimos começar a comprar no Brasil.

O estrangeiro seduzia-me, mas não o Brasil. O país que desde pequena me chamava para viver era o Canadá. Já tinha tentado por duas vezes tratar da documentação para emigrar para o Canadá, mas sem sucesso. Como os negócios iam correndo bem, apesar de todas as dificuldades, fomos pensando mais alto, até que surgiu a ideia de importarmos carros, motas e geradores através do Dubai. E lá fomos nós!”

Fotografia: Mª. Helena da Bernarda

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(publicado a 7 de agosto de 2023)

2|2 UMA MULHER E TANTO - Dignidade
“O negócio foi crescendo e, na mesma proporção, a confiança dos fornecedores em nós. Tanto assim foi, que passámos a fechar contentores sem necessitarmos de nos deslocar ao Dubai. Pagávamos antecipadamente e tudo corria bem, até ao momento em que começaram a faltar peças.

Descobrimos que era na alfândega angolana que as peças desapareciam. Para não perdermos tudo, tivemos de começar a mandar vir contentores com as peças que faltavam, o que era um custo extra relevante. Passámos de ter uma empresa lucrativa a perder dinheiro.

Reflecti muito e percebi que não era possível nem ser empresária, nem ser feliz num país onde há sempre uma ratoeira preparada para nos entalar.

A vida estava a ficar cada dia mais difícil e eu não queria aquilo para os meus filhos. Casada e com três filhos - dois rapazes já criados e uma menina menor, com 12 anos - disse para comigo: ‘Se não vamos para o Canadá, vamos para Portugal!’

Em 2017, vim à frente com a menina. A seguir vieram os dois rapazes - na altura ainda solteiros - e só um ano depois veio o meu marido.

Felizmente não tive dificuldade em arranjar logo trabalho. Entrei como auxiliar na Casa do Artista. O que faço não tem nada a ver com o tipo de actividade que eu fazia, mas cada coisa no seu tempo. Não me queixo de nada, nem sinto que tenha um trabalho inferior, apenas diferente. O trabalho, qualquer que ele seja, dignifica a pessoa.

O meu marido teve mais dificuldade em arranjar emprego mas também já trabalha na construção civil, na área das instalações eléctricas.

Aproximo-me dos 50 anos mas sinto que ainda não entrei na última etapa. Nunca esqueci os conselhos do meu pai, um homem viajado que sempre nos dizia: ‘Nunca se limitem, não desistam nunca dos vossos sonhos; se for para arriscar, arrisquem, para que amanhã não se arrependam!’

Eu herdei muito do espírito do meu pai: sempre sonhei grande. Por isso, acredito que isto é mesmo uma fase e que o meu velho sonho de criança ainda se vai concretizar: ir viver para o Canadá!

Tenho a certeza de que se eu for para o Canadá, não só o marido como todos os filhos me seguirão. É que dizem que sou o motor lá de casa!” (risos)

Fotografia: Mª. Helena da Bernarda

Natália Guimarães (Nós nos Outros)

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por Maria Helena da Bernarda

Natalia Guimaraes 1 Helena da Bernarda

Natália Guimarães


(publicado a 3 de agosto de 2023)

1|2 O SORRISO QUE NUNCA PERDI - Pés no ar
"Não gosto de mostrar má cara a ninguém. Não que não tenha os meus problemas, mas as pessoas é que não têm culpa. Dantes era muito chorona - tudo me comovia - mas a vida ensina-nos muitas coisas e nós vamos endurecendo, ou melhor, vamos aprendendo a relativizar. Se deixei de chorar, o sorriso nunca o perdi. Ainda me lembro de a minha mãe me ralhar: ‘Natália, não podes estar sempre de taxa arreganhada. Isso parece mal!’ (risos)
Vim para a Casa do Artista há 5 anos como acompanhante da minha irmã, a actriz Cecília Guimarães, com quem vivi a minha vida toda. Nenhuma das duas casou; sempre vivemos com os nossos pais e juntas continuámos após os seus falecimentos.
Quando a minha irmã foi perdendo capacidades, ela não queria ver-me sacrificada com as tarefas domésticas e sugeriu a mudança para aqui. Eu nunca a largaria. Infelizmente largou-me ela aqui dentro, pelas piores razões. Enquanto eu estive ao pé dela, dando-lhe as refeições, ela conseguia agarrar-se à vida; quando a levaram para o hospital, pouco tempo depois, faleceu. Mas nem a sua morte me dá o direito de fazer má cara a quem cá está.
Fui ‘ponto’ no Teatro Experimental dirigido pelo excelente Pedro Bom, apenas quando era necessário. A minha carreira foi mais planificada, mas não ‘pés na terra’. Também voei bastante, pois trabalhei longos anos numa agência de viagens. Adorava viajar.
Fiz o Curso de Instrução Prática da Escola Lusitânia Feminina, que incluía Línguas Estrangeiras, Estenografia, Dactilografia, Recreações Matemáticas… Era um curso muito completo que preparava bem as mulheres para funções administrativas, entre as quais o Secretariado.
No início da minha vida profissional, o Solnado convidou-me para ‘ponto’, pois uma voz suave e feminina era a ideal. Mas não era esse o meu sonho. Depois de uma passagem por uma empresa de cortiças, trabalhei durante 20 anos na Sandoz - um importante laboratório farmacêutico - mas o que me realizou verdadeiramente foi a agência de viagens onde estive muitos anos. Se já viajava na farmacêutica por força dos congressos que fazia, então na agência viajei muitíssimo, o que era sempre uma fonte de prazer.”

Fotografia: Mª. Helena da Bernarda

Natalia Guimaraes 2 Helena da Bernarda


(publicado a 4 de agosto de 2023)

2|2 O SORRISO QUE NUNCA PERDI - Piano a quatro mãos
“Talvez por gostar tanto sempre daquilo que fiz, nunca me entreguei sentimentalmente a alguém, para não comprometer a minha vida profissional. Conheci pessoas, tive assim um namorico ou outro, mas não tenho pena de ser solteira. Talvez de não ter filhos, sim, pois sempre gostei muito de crianças.
Hoje, há mulheres que optam por ser mães solteiras mas, considerando-me até muito aberta aos meus 94 anos, essa opção deixa-me dúvidas; questiono-me se não será uma forma de egoísmo. Faz-me impressão que uma criança não nasça num quadro de pai e mãe, mesmo que a vida possa mais tarde desfazê-lo. São épocas e, na minha, era impensável trazer deliberadamente ao mundo uma criança sem pai. Eu e a minha irmã tivemos uma educação conservadora, mas aberta ao tempo.
Tive uns excelentes pais, mas era com o meu pai que eu mais me identificava. Era um Senhor com maiúscula, de uma rectidão irrepreensível, licenciado em Economia e Finanças. Era afectuoso e dava-nos muita atenção; nunca nos batia, aconselhava. Além disso, tocava muito bem violoncelo, tanto que chegou a tocar numa orquestra. Nós tínhamos piano em casa, a minha irmã ainda fez o 9º ano de piano mas eu fiquei-me pelo 6º. Tanto que eu adorava os nossos serões musicais: o meu pai tocando violoncelo e nós as duas tocando piano a quatro mãos.
Vivi sempre com eles até ao último segundo das suas vidas. Perdi o meu pai no dia dos meus anos. Deixei de celebrar o meu aniversário. Para trás ficaram as lágrimas.
Tive quem gostasse de mim mas, honestamente, acho que nunca amei verdadeiramente um homem. Não o suficiente para casar. Não o suficiente para falhar os compromissos profissionais. Não, para me submeter a um homem que me dissesse: ‘Agora não vais para aqui ou para ali’. Na minha geração, era isso que se esperaria ouvir de um marido. Mas a vida é o que tem de ser e a felicidade de uma mulher não passa necessariamente por ter marido e filhos, mas por se realizar como pessoa. Eu sinto-me realizada, sobretudo pelas pessoas tão interessantes que conheci. Com 94 anos, ainda tenho muitas amizades que me vêm visitar. Mais de uma mão cheia! Que mais posso pedir?”

Fotografia: Mª. Helena da Bernarda

Américo Silva (Nós nos Outros)

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por Maria Helena da Bernarda

Americo Silva 1 Helena da Bernarda

AMérico Silva


(publicado a 31 de julho de 2023)

1|3 ENTRE AS MÃOS UMA GUITARRA - O Comboio Foguete
“Estou há 7 anos na Casa do Artista, de que sou sócio desde a sua fundação, por ser muito amigo do Raul (Solnado) e do Armando (Cortez).
Sentia-me um homem jovem até apanhar Covid três vezes consecutivas, doença seguida de uma fractura do fémur, de que estou ainda a recuperar-me. Desde então, já não sou o que era. Aceito fazer o ‘deve e o haver’ de uma vida intensa, dedicada essencialmente à música e ao espectáculo.
Ao contrário do velho rifão que sugere dizer que voltaria a fazer tudo o que fiz, eu afirmo que faria ‘quase’ tudo o que fiz. Mas há coisas de que me arrependo, sem dúvida.
Nasci em Amarante há 85 anos, tendo sido o primeiro da família a mudar-se para o Porto, ainda não tinha completado os 14. Amarante já era pequeno para mim. No Porto, fui residir em casa de um primos e comecei a trabalhar numa farmácia. Mas aquela vida sem emoção também não me bastava. O que me chamava, e viria a ser o maior amor da minha vida, que coloquei sempre à frente de outros, foi a música. Fiz dela a minha vida, a minha profissão, a minha deusa.
Fui um autodidacta no canto e na guitarra, fazendo do fado a minha melhor forma de expressão artística. Em 1957 concorri a um concurso radiofónico que se chamava ‘O Comboio Foguete’, tenho saído vitorioso na classe de fado. Há momentos que definem uma vida e esse foi um deles. A partir daí, tudo seria consequência. Viria a constituir diversos trios polifónicos com algum sucesso, entre os quais, ‘Os Três de Portugal’.
Já com uma agenda de espectáculos composta, fui apurado para o serviço militar e um dos quatro sortudos que, por sorteio, escapou ao Ultramar.” Fotografia: Mª. Helena da Bernarda

AMerico Silva 2 Helena da Bernarda


(publicado a 1 de agosto de 2023)

2|3 ENTRE AS MÃOS UMA GUITARRA - A Experiência
“Cumprido o serviço militar no Estado Maior do Exército, retomei o meu trio de sucesso. Recordo que um dia tínhamos um concerto marcado em Espanha. A TAP não cumpriu o horário do avião; como nós tínhamos contrato firmado para actuar naquele dia, a companhia colocou um Super Constellation à nossa disposição para chegarmos a tempo a Málaga, com destino a Marbella.
Os contratos no estrangeiro não paravam. Mas os trios que eu integrava não eram sempre os mesmos. Um deles foi o ‘Trio Boreal’, mas aquele que considero o melhor dos melhores, tecnicamente o mais consistente, chamava-se ‘Os Arautos’. Eu cantava e tocava requinto e viola.
Ao longo desta vida fantástica, conheci pessoas marcantes. À cabeça destaco a minha mulher, a única com quem casei e a mãe dos meus dois filhos - uma rapariga e um rapaz, ela 3 anos mais velha - mas também conheci figuras do mundo do espectáculo, amigos que viriam a tecer a minha carreira com fios e desafios muito interessantes…
Conheci o maestro Xavier Cugat nos espectáculos televisivos onde toquei, durante os quais ele regia a orquestra com um chihuahua no bolso da lapela, de patinha de fora balançando ao ritmo da música. Conheci o meu grande amigo e empresário Senhor Almeida, pai do Carlos do Carmo e dono do Faia, um espaço, naquele tempo, pequeno em tamanho mas enorme como referência do fado. De certa forma, o Senhor Almeida foi meu pai também: pai artístico, naturalmente.

Conheci ainda o Luiz de Campos - falecido aqui na Casa do Artista - o responsável de uma mudança radical na minha vida e proprietário de algumas das melhores casas de espectáculo no Brasil - São Paulo e Rio de Janeiro - e uma em Portugal. Um dia, o Luiz enviou-me uma carta dizendo que precisava muito de mim no Brasil… no prazo de uma semana. Ele sabia ser persuasivo. Eu já estava casado, tinha os dois filhos, tocava no Porto mas, confesso, fiquei muito seduzido por uma proposta tão tentadora. A minha mulher não me desencorajou e decidimos que valia a pena a experiência.
Fui, sem imaginar que viveria no Brasil 24 anos, 12 dos quais de uma assentada, sem vir a Portugal visitar a família.”
Fotografia: Mª. Helena da Bernarda

AMerico Silva 3 Helena da Bernarda


(publicado a 2 de agosto de 2023)

3|3 ENTRE AS MÃOS UMA GUITARRA - Amores
“A mulher e os filhos não foram de início porque havia a escola, a vida organizada aqui, enquanto a minha era uma total incerteza. Fui ficando, fomo-nos acostumando e a verdade é que estive 12 anos sem cá vir, embora nos falássemos todos os dias pelo telefone. Esse foi um erro que gostaria de não ter feito. Nunca nos divorciámos, mas nunca voltámos a ser um casal funcional. O casamento ficou ferido de morte pela distância, mas a amizade não. Infelizmente ela faleceu muito cedo. Ela foi a mulher da minha vida, afirmo-o sem vacilar.
A relação com os meus filhos é a possível. As marcas de um pai ausente terão ficado e várias vezes eles mo referiram. Mas pelo bem que lhes quero, pelo amor que lhes tenho, eles hoje compreendem-me. Não fui um pai nem um marido exemplar, mas sou um homem genuíno. Sou ainda um avô devoto de uma única neta de 32 anos que trabalha em Barcelona e que infelizmente pouco vejo. Agora, cabe-me a mim provar o amargo sabor das suas ausências.
Quando cheguei do Brasil, vim completamente agarrado à guitarra portuguesa. Era ela que eu abraçava todos os dias, a minha maior paixão, a certeza do meu futuro. A música falou sempre mais alto.
Só na Taverna d’El Rey, em Alfama, toquei mais de 12 anos. Mas corri as casas todas: a Adega Machado, o Faia, a Severa,… todas. Cantava e tocava. Se eu ia só como guitarrista, pediam-me para cantar; se eu ia para cantar, pediam-me para tocar. Nunca me escapava de fazer as duas coisas. Voltaria ao Brasil onde vivi, ao todo, quase 25 anos.
Ao longo da vida, tive muitas namoradas. Cheguei a viver maritalmente, mas casar não. Se admito que me arrependi do afastamento prolongado da família, tenho de ser honesto para dizer que não me arrependo de ter namorado nenhuma das mulheres que passaram pela minha vida.
Conheci pessoas tão interessantes, que não consigo preferir não as ter conhecido. Fui sempre honesto. Mais do que um homem de paixões, fui um homem de convicções, o que me levava a assumir cada relação. A mentira é o que mais me repugna. Acho que é por isso que aos 85 anos não tenho más memórias.
Não consigo imaginar uma vida sem música, sem verdade e sem amor.”

Fotografia: Mª. Helena da Bernarda

Teresa Sanches (Nós nos Outros)

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por Maria Helena da Bernarda

Teresa Sanches Helena da Bernarda

Teresa Sanches


(publicado a 18 de junho de 2023)

AS MUDANÇAS DA MINHA VIDA
“Sempre enfrentei todas as mudanças combinando realismo e esperança. Fiz 70 anos há duas semanas e não sinto que a idade por si me limite, enquanto eu tiver saúde que me assegure mobilidade. Ser mãe foi a primeira grande mudança na minha vida. Há um 'antes' e um 'depois' da maternidade, sendo que o depois é muito melhor. O esforço é amplamente recompensado.
Outra grande mudança, que voltaria a fazer sem hesitar, foi sair da função pública - trabalhava num Centro de Saúde - para integrar o Teatro Experimental de Cascais, como Técnica de Teatro, estava eu nos ‘trintas’. No TEC fui ponto, fui assistente de ensaios e de encenação, fui directora de cena, fiz luzes e só fiz interpretação duas vezes… por engano. Nunca foi esse o meu sonho. Era como técnica, dando suporte, que eu me exprimia melhor, mais competente e realizada.
A tarefa talvez mais significativa que fiz foi tratar um espólio de 18.000 fotografias do TEC. Digitalizei cerca de 10.000 - algumas das quais se desfaziam - e tinha de identificar cada fotografia, o autor, a peça e quem constava na imagem. Contactando muitas pessoas, consegui catalogar todo esse espólio, entretanto doado à Câmara de Cascais.
Entrei para o Teatro ainda casada, mas divorciei-me quase aos 40 anos. Foi outra mudança que tive de assumir, ajustando a minha vida.
Há 12 anos fui surpreendida com uma doença oncológica na tiróide, mas essa foi a mudança menos decisiva. Na verdade, apenas tive de superar a cirurgia de extração da glândula e passar a depender de um comprimido. Não me tornou diferente em nada.
A mais recente mudança foi a decisão de deixar a minha casa, perto de Montelavar, para entrar nesta residência, a Casa do Artista. Não suportava mais a solidão a que a Covid me estava a remeter. Mais do que o vírus, era o isolamento que me estava a matar.
Tenho dois filhos - um rapaz e uma rapariga - que me deram suporte, levando-me as refeições durante o confinamento. Valiam-me os filhos e o Manel, o meu gato de companhia. Quando decidi vir para aqui, só tive pena de devolver o meu Manel à Associação São Francisco de Assis, mas… tinha de ser.
Tenho mais medo de estar parada do que de mudar. Mudar é preciso!”

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